Política


Faz sentido que a mídia mundial acompanhe de perto as eleições americanas. Afinal, o nome que aflorar do processo bizantino de eleições indiretas que parecem diretas, literalmente comandará o mundo sem restrições. Continuará uma tradição de 60 anos de ingerência (por meios claros ou escusos) em nações soberanas. Manterá a roda-viva do consumismo, amparado em crédito destemperado, às custas do desenvolvimento econômico exterior. Poderá jogar bombas em quaisquer países julgar interessante, sem impedimentos.

O processo eleitoral americano deve ser acompanhado por todos os seres humanos, sem exceção. Em jogo podem estar suas vidas.

Aos nomes, pois: John Edwards e Rudolph Giuliani acabaram de pular fora. O tosco Mitt Romney, felizmente, não tem chances reais. John McCain pode parecer um velhinho simpático, mas é um republicano. Barack Obama fala bem, mas só superficialmente. Ninguém sabe como fará o que afirma ser necessário fazer. E Hillary, nenhum brasileiro deve esquecer, foi ao menos parcialmente responsável pela evasão escoltada dos pilotos do jato Legacy que colidiu com o vôo 1907 da Gol. Sejam culpados ou não, jamais serão julgados agora.

Uma coisa, porém, dá certo alento. Nenhum deles é o atual presidente. Sempre que um genocida deixa o poder, renova-se minha esperança na humanidade. Não dura muito a sensação, mas comemoro mesmo assim.

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…E porque hoje é sexta-feira, e sexta é dia de boas notícias, a Secretaria da Fazenda de SP divulgou a tabela para cálculo do IPVA 2008.

Direto ao que interessa: descubra no Excel zipado o valor venal do seu veículo, de acordo com o ano-modelo (colunas rotuladas “m200…”). O IPVA do seu carro será equivalente a 4% disso (ou 3%, se for movido a gás ou a álcool, somente). Motocicletas, ônibus, microônibus e tratores pagam 2%.

Bom início de fim de semana a todos!

Todo mundo tem um palpite sobre como será campeonato mundial de futebol de 2014. Eis o meu: será mais ou menos o que foi o Pan 2007, ou seja, dará tudo certo no final das contas. Alguns erros serão anotados, mas se até no Mundial da Alemanha o teto do estádio vazou um agüaceiro, não haverá quem se lembre muito deles. Afinal, o destino sinalizou a necessidade de um mínimo esforço de arrumação: o incidente na Fonte Nova ocorreu poucas semanas após ouvirmos a confirmação da sede do Mundial 2014. No Brasil, sempre morrem alguns para que o poder público se mexa com celeridade.

O problema relacionado ao Mundial 2014 certamente não será ligado ao futebol em si, mas à perpetuação do modelo de “cartolagem” que já cansou de encher páginas policiais e desesperançou todos os brasileiros fãs de esporte com três ou quatro neurônios funcionando. O presidente da confederação brasileira é um excelente assunto para reflexão: a história de um advogado comum que se casou com a filha do rei e virou príncipe, para nunca mais sair do trono. Monarquia é a única forma de governo que explica a perpetuação de um sujeito conivente com tamanho atraso e descarada demonstração contínua de conveniências a cada novo campeonato regional, nacional ou internacional. Um povo cordeiro e desenergizado pela faina diária não deve ter forças para ir à rua e exigir sua renúncia — se nem os impostos extorsivos nós combatemos, porque o faríamos com mero lazer televisivo?

A Seleção Brasileira é a guarda real. O entronado escuda-se nas idolatradas armaduras canárias para manter o povo feliz consigo. O que se estranha é que nem mesmo a fragorosa derrota de 2006 — a segunda nos pés do desafiador Zidane, diga-se — foi capaz de lançar adagas contra o rei.

Fossem estes tempos renascentistas, a elite despregada do poder atiçaria as massas contra o rei e seus lordes espalhados nas confederações estaduais, e concomitantemente contrataria um exército mercenário para fazer o trabalho de força. Mas aqui, agora, nem Ministérios Públicos estaduais e federal foram capazes de se organizar a contento. Os cartolas se provaram mais espertos.

Que tão baixas formas de vida se apoderem do futebol brasileiro e extraiam a vitalidade do hospedeiro até que se torne pústula é uma reflexão que fiz hoje, pasmem, por influência de um norte-americano.

Franklin Foer nasceu nos EUA num tempo em que futebol só era transmitido pela tevê de seu país em Copa do Mundo. Eventualmente, umas reprises de partidas dos campeonatos alemão e italiano aos Domingos pela manhã, e só. Descobriu que não se dava com a bola nos pés bem cedo, freqüentando uma das escolinhas fundadas num modismo que encantava pais americanos da geração baby boomer, a partir do final dos anos 60. Mas a paixão pelo esporte cresceu com ele. Já adulto e formado jornalista, com currículo de contribuições ao Wall Street Journal, New York Times, Slate e Spin, decidiu fazer algo que deixaria muito brasileiro morrendo de inveja. Passou oito meses visitando vários estádios emblemáticos mundo afora e compilando informações com jornalistas e cronistas de cada país. Assistiu a jogos clássicos e entrevistou figuras visceralmente ligadas à bola. Convenceu seu agente (e depois uma editora) que seria uma boa idéia tecer comentários sobre a espiritualidade transnacional do esporte mais popular de todos, e sua relação direta com a globalização da economia. O resultado é um livro fascinante do começo ao fim: How Soccer Explains the World (editora HarperCollins).

Cada capítulo trata de um canto de mundo onde o futebol tem um papel além do puro exercício atlético — e por acaso haverá lugar aonde o futebol se restrinja a isso? A paixão de Foer pelo esporte é evidente no capítulo sobre o Barça (o maior defeito editorial do livro é não imprimir cedilhas), mas as partidas que pincela têm significado mais político do que esportivo, e correm em todos os lugares. Ele está interessado em sentar-se nas arquibancadas e olhar para os torcedores — em como suas práticas na arena refletem suas bases culturais. Também está interessado em visitar os clubes e seu entorno, para entender como a própria fundação e manutenção das agremiações reflete o contexto social e político de sua época.

É nas pessoas, e não no esporte em si, que Foer se concentra; é delas que saem as peças mais instigantes de seu raciocínio. Ao dar voz e analisar figuras tão díspares como um hooligan inglês e um nigeriano contratado pelos Cárpatos para treinar a 25 graus centígrados negativos, ele humaniza seu retrato do esporte que é uma fascinante mescla de dinheiro globalizado e ressentimentos regionais; um canal de vociferação contra regimes políticos; um pivô de resistência (ou de abraço) à transformação; um centro de instilação de domínio em regimes totalitários ou corruptamente democráticos.

O Brasil está lá, bem resumido: do Pelé “calado e poeta” ao Pelé que abraçou Ricardo Teixeira e fez o jornalista José Trajano lamentar a morte da decência no esporte; da exportação de craques para compensar os rombos de parcerias com grupos internacionais, como ISL e Hicks Muse (a patética opereta MSI foi descortinada após a publicação do livro, o que é uma pena); e de muitas outras “particularidades”. Enfim, o retrato da corrupção que todos nós conhecemos muito bem, mas que, lido em inglês, torna-se mais duro, mais incômodo: é um visitante implicitamente cutucando nossa permissividade, e dizendo, afinal de contas, a mais pura verdade.

Mas o Brasil é fichinha perto do que se faz em nome do futebol pelo mundo. Estão no livro agremiações de fãs violentos que se tornaram instrumentos paramilitares nas guerras dos Bálcãs; mulheres loucas por futebol que forçaram mulás iranianos a rever regras teocráticas sobre comportamento; e um novo olhar sobre o conflito católico-protestante, não exatamente na Irlanda, mas na ancestral rivalidade entre os dois maiores times da Escócia. E mais… oligarcas italianos, catalães opositores ao Franquismo, escretes judaicos reais ou imaginários, e conservadorismo norte-americano. Tudo entremeado ao futebol, o esporte mais popular do planeta, e conseqüentemente, o maior veículo de paixões coletivas que existe. Certamente o livro mais interessante que li este ano, por tratar não exatamente de esporte, mas do mundo espelhado pelo esporte. Evidencia que “pátria de chuteiras” é qualquer coisa, menos uma exclusividade brasileira.


Pouco antes de terminar este texto, resolvi checar se o livro foi lançado no Brasil. Sim, foi. A editora Jorge Zahar oferece o prólogo para leitura.

A única coisa que sobra para comentar, em se tratando de Corinthians hoje, foi a choradeira no Estádio Olímpico incessantemente retratada pela TV. Os corintianos mostraram desconsolo, reza, desespero — amor ao clube, enfim. Depois do espetáculo na última desclassificação da Libertadores, em pleno Pacaembu, eu esperava qualquer coisa bem pior: cenas de cerco a jogadores, palavras de ordem ameaçadoras e por aí vai. Vamos ver o que acontecerá no retorno a São Paulo.

O jovem político Felipe, que escapa ileso de qualquer acusação, soube aproveitar o momento para fazer outro gesto teatral, desta vez pedindo desculpas. Joga para a torcida, como se diz, mas é um ótimo goleiro e o ano de 2008 saberá reservar-lhe um destino melhor, talvez isolado de seus confrades.

De resto, que voltem campeões pela Série B, ou darão ainda mais munição aos palmeirenses.


Eu diria que a coisa mais triste desse Campeonato Brasileiro não foi o baixo nível do futebol, responsável pela entrega antecipada do título ao único time com doses regulares de estrutura e profissionalismo (talvez exagerado, dado o pragmatismo dentro de campo). Também não foi o escoramento de times inteiros em jogadores para lá de gastos, como Edmundo, Paulo Baier e o “tetra” Vampeta (quatro times rebaixados em cinco anos, se não errei as contas). Foi, isso sim, a presença midiática do Sr. Presidente da República no âmbito do futebol, dando palpite sem cabimento até em suspeitas de doping. Alguém deveria ensinar-lhe a cuidar de assuntos que lhe competem — assuntos muito mais prementes, diga-se.

Minha amiga Lu contou uma interessante história sobre a Fonte Nova, palco da tragédia mais anunciada do Brasil em 2007. Ao passear de táxi em Salvador, topou com um estádio que a princípio pensou ser a famosa Fonte Nova, sede do Esporte Clube Bahia – mas descartou a idéia porque o estado geral indicava uma construção há muito abandonada. Curiosa, perguntou ao taxista que lugar era aquele, e o sujeito, adivinhem, confirmou: “É a Fonte Nova!”

Isso aconteceu há mais de um ano. De lá para cá, o que mudou? De abandono, virou desastre. O ilustre Bobô, ex-jogador de certa fama no futebol paulista, hoje na Superintendência de Desportos da Bahia, passou o último domingo diante das câmeras de TV tentando justificar o injustificável.

 O fato é: desabou parte da arquibancada, e morreu uma porção de gente. Qualquer pessoa em sã consciência, olhando as imagens pela TV, veria que o concreto rivalizava em podridão com o do “esqueleto da Juscelino”, imenso prédio público que não passou do arcabouço e ficou anos a fio largado na Marginal Pinheiros, como monumento ao escárnio estatal e ao desperdício de dinheiro público.

Agora, o ilustre governador Jacques Wagner anuncia aos quatro ventos da mídia a implosão do venerável palco de futebol baiano e os planos para um novo estádio, mais moderno, em conformidade com as exigências da Copa 2014. O povo aplaude, o bafo de modernidade sacode a tristeza, e vamos ao futuro!

 Enquanto isso, os familiares da tragédia receberão da seguradora 25 mil reais por parente perdido.

 Em nota oficial, o governador destacou que, mesmo com a decisão de implodir o estádio, a apuração das causas do acidente irá continuar. Alguém aposta alguma coisa nisso?

O Ministério Público deve decidir se irá incluir a Federação Baiana de Futebol e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) entre os responsáveis pelo acidente ocorrido no domingo, que envolveu aproximadamente 60 pessoas. Inicialmente, a responsabilidade pelo acidente é da Superintendência dos Desportos do Estado da Bahia (Sudesb), que administra o estádio.

Tramita na Justiça desde 2006 um pedido de interdição da Fonte Nova. Desde então, a promotoria vem pedindo o julgamento da ação civil pública. Até agora, nada.

Donde se vê que quase uma dezena de pessoas morreu por uma combinação de fatores bem brasileiros: omissão do poder público e lentidão da Justiça brasileira. É a triste história de sempre.

Ted RallO sujeito na foto é, possivelmente…

a) o homem mais bem informado dos Estados Unidos, no que tange política nacional e internacional;

b) o homem mais inconformado com a reeleição de George W. Bush;

c) o nome mais provável de constar numa lista negra de exiláveis, caso o Home of the Brave deixe de ser a Land of the Free.

Seu nome é Ted Rall. Colunista e cartunista político, Rall é a pena mais ácida, contundente e presciente que já ousou atacar o status quo americano. A profundidade de suas observações, seja em texto ou (mais especialmente) em cartuns, só se compara ao sarcasmo inerente às suas tiradas, que fazem o americano acima da média pensar na lama em que se enfiou graças a seu próprio voto.

Prolífico e incansável, Rall já trabalhou como radialista; foi premiado várias vezes por seus talk shows, transmitidos ao vivo inclusive do exterior. Foi o primeiro norte-americano a irradiar entrevistas ao vivo de países como Cuba e Usbequistão, além de cobrir as incursões militares no Afeganistão em gravações elogiadas. Parte do seu trabalho pode ser encontrado no acervo de seu site oficial.

Hoje concentra seu fogo em editoriais e cartuns, publicados em 140 órgãos de imprensa nos EUA. Sem dar a menor bola para o clima de terror imposto aos cidadãos americanos, Rall retrata o presidente (a quem já chamou de “residente”, em função da eleição decidida pela Suprema Corte) como um clássico ditador de quinta categoria, “Generalissimo El Busho”, até em camisetas. Seus cartuns, publicados cerca de três vezes por semana na Web, filtram os principais absurdos da política americana (e seus reflexos na sociedade). Leitores brasileiros poderão se perder quando o assunto for política partidária ou legislativa (quem, afinal de contas, sabe o nome dos deputados de New Hampshire, por exemplo?), mas saudarão em silêncio as tiradas terrivelmente verdadeiras sobre a barbárie que o governo norte-americano espalha pelo globo, em nome da “caça aos terroristas”. O estilo seco de seu traço emoldura ainda mais a perplexidade (e paralisia) do americano pensante – não se pode esquecer que existe o americano pensante, e que não é uma raça em extinção. Oxalá os iluminados pela pena de Ted Rall possam dar novos rumos a seu país, o que certamente traria novos rumos ao mundo.

Era inevitável. Num mundo em que a paranóia é atiçada pela nação mais rica, cedo ou tarde o estado de exceção começaria a se espalhar, buscando se tornar regra…

Entrou em vigor no Japão uma lei que obriga o fichamento de turistas estrangeiros ao entrarem no país. Segundo a Folha de S. Paulo, a nova lei “obriga o registro de dados biométricos de 7 dos 8 milhões de estrangeiros (…) em 27 aeroportos e 126 portos”. Da ficha, que inclui retrato e impressão digital, escapam apenas menores de 16 anos, diplomatas, convidados do governo e moradores permanentes (coreanos e taiwaneses, em geral).

Críticos dizem que o governo nem sequer possui uma estrutura adequada para processar e analisar o volume previsto de informações. Cinqüenta gatos-pingados, entre eles um membro da Anistia Internacional, protestaram contra a medida diante do prédio do Ministério da Justiça japonês. Decerto o protesto será ineficaz, mas não tanto quanto a utilização dessas fichas, aposto.