Natureza


Chris Jordan é um artista norte-americano que instiga observadores a pensar nas armadilhas ambientais que a sociedade constrói contra si mesma. Como ele próprio diz, as agressões ao meio ambiente geralmente são retratada nos meios de comunicação por números — abstrações. Ou seja: a poluição, a voracidade, a devastação são quantificadas em valores que dificilmente estabelecem uma reação emocional de conscientização.

Afinal de contas, o que representa para o ambiente a venda anual de 3,6 milhões de utilitários esportivos nos EUA? Números desse tipo podem ser muito mais impactantes se convertidos em imagem. É isso o que Jordan faz em sua exposição mais recente, Running the Numbers: milhares de fotos de produtos descartáveis ou dejetos, digitalmente alinhadas, formam mosaicos gigantes que comunicam a vastidão do desperdício e simbolizam o consumo avassalador de recursos naturais. A capacidade intrínseca à fotografia de estabelecer uma reação emocional, somada à escala de elementos compostos nas fotos, dá um recado imediato aos leitores. O subtexto confesso do fotógrafo é o de “enfatizar o papel do indivíduo numa sociedade progressivamente mais vasta, incompreensível e sufocante”.

Cada mosaico representa uma certa quantidade de itens consumidos ou descartados num determinado período de tempo. São expostos na forma de enormes painéis em galerias de arte, o que simultaneamente oferece ao leitor tanto a composição artística como a revelação dos elementos constituintes (bastaria dar alguns passos na direção de cada painel).

Para tentar simular o efeito de mosaico no site, Jordan apela para o zoom progressivo de cada trabalho, até chegar ao ponto de mostrar os itens individuais utilizados como “pinceladas”. Perceber a quantidade insana de “pedrinhas” do mosaico é ainda mais estarrecedor que a obra final. Por exemplo: Skull with Cigarette, painel criado em 2007 com quase dois metros e meio de altura, é composto por 200.000 imagens de maço de cigarro. Esse número não é escolhido a esmo. Duzentos mil é o número de norte-americanos que morrem a cada 6 meses de doenças ligadas ao tabaco.

O trabalho de Chris Jordan também pode ser vislumbrado nas páginas da “edição verde” da revista Superinteressante (n° 247), recém-chegada às bancas. Oxalá alguma entidade brasileira com metas de conscientização ecológica venha a expor suas obras no Brasil. Seria uma aula de ecologia eficiente como poucas.

Anúncios

Tomei hoje a Linha Celeste — o trem movido a eletricidade que acompanha o Rio Pinheiros.

Em 2000, na mesma semana em que fui contratado para trabalhar na Berrini, o trem nascia. Fui um dos primeiros usuários. Certamente, um dos primeiros a usar o trem todo dia, de casa para o trabalho e de volta para casa. As estações eram um deserto. Os trens, trazidos da Espanha, tinham ar-condicionado e eram melhores que o metrô. Só incomodava o cheiro do rio, em dias quentes. E a aridez da terra seca em redor. Mas tudo aquilo era melhor que o asfalto pisoteado por tantos carros voando em disparada pela Marginal — ou amontoando-se num rastejar coletivo, esperando alguma coisa que ninguém vê abrir caminho lá na frente.

Pelo rio corriam meus pensamentos naqueles curtos passeios. Com o tempo, o rio ganhou mais vida. O governador lançou um projeto com nome de pomar e plantou mudas pelas encostas. Árvores nascentes passaram a marcar as distâncias entre uma estação e outra. Eu torcia para que vingassem — para que jogassem sombra na terra árida — para que pintassem de verde aquele cinza barroso.

Sete anos depois, cresceram as árvores. Fui lá hoje e vi. Há um caminho inteiro delas, rio afora. Acho que nenhum carro passante enxerga. Mas quem entra no trem, vê. Se parar de falar de trabalho com o colega embarcante e olhar pela janela, vê.

Sete anos tornaram o trem uma passagem para muita gente. Hoje, estava cheio. Seguranças ajudavam as pessoas a se acomodar, para que as portas pudessem ser fechadas. Uma linha de metrô lilás que quase ninguém conhece leva o povo desse trem para um capão. O povo que mora lá, decerto. O trem continua com ar-condicionado, mas cheira a azedo, suor de tanta gente amontoada sendo reprocessado pelas máquinas. Tiraram Raul Seixas e sanfoneiros sem nome dos alto-falantes; agora tocam música clássica, mas quase ninguém escuta. É um metrô de fim de dia sob o sol, cheio de gente que não liga para as árvores. Elas também não ligam, continuam firmes e fortes lá fora. Felizmente.

Desembarquei e vi uma placa amarela fincada perto do rio, ao lado de uma via asfáltica para caminhões de manutenção (do trem, do rio — quem sabe?). A placa mostrava, e falo sério, um desenho de capivara. Dizia “Cuidado! Animais silvestres!” Tinha outra igual a uns cem metros.

A Berrini dos prédios de aço, onde tanta gente se esfalfa mas não fica para dormir, debruça-se sobre capivaras. Quem diria.

Uma preocupação pouco discutida publicamente está na pauta de alguns ecologistas europeus: como dispor de cadáveres humanos com mínimo impacto ambiental?

Uma questão como essa sempre expõe um certo pudor nas pessoas. Dependendo da religiosidade condicionada em cada um, ela pode parecer “desrespeitosa” ou até “macabra”. Na verdade, é simples: o espaço para humanos mortos está escasseando no mundo urbanizado.

Adensamentos urbanos há séculos se apóiam no conceito de “cemitério” para desfazer-se dos mortos: uma faixa de terreno, em geral pertencente ao poder público, onde se possa enterrar as pessoas e posteriormente honrar sua memória, visitando os jazigos. Em face dos tabus que naturalmente se afixam à perda de entes queridos, variações que privilegiem o uso racional desses espaços, tais como covas de vários andares e enterro vertical de caixões, dificilmente são bem aceitas. Se o ente querido não estiver “deitado” em seu espaço inviolável, numa representação de inatacável sono eterno, os vivos não se sentirão aliviados.

A cremação é a única alternativa bem aceita e já corriqueira. Os ecologistas, porém, torcem o nariz para a fumaça gerada pela queima e apontam outro problema intrínseco: expostos ao calor intenso, metais fracionalmente depositados no corpo humano (como o tóxico mercúrio, encontrado em amálgamas dentárias) são liberados para o ambiente.

A solução talvez esteja no elemento taoísta que se opõe ao fogo: a água. Mais precisamente, o estado sólido da água.

Uma nova técnica, em pauta na Inglaterra e já praticada na Suécia, recebeu o nome de “promessão”, derivado da empresa sueca que a desenvolveu (Promessa). Envolve o resfriamento do cadáver, em duas etapas. Primeiro é feito o congelamento do morto, a 18 graus centígrados negativos. Depois, vem um brevíssimo mergulho em nitrogênio líqüido, a -196 ºC. Essa exposição ao frio extremo fragiliza enormemente os tecidos.

No passo seguinte do processo, ondas sonoras em determinada freqüência são direcionadas ao corpo. A vibração transforma tudo em farelo. Dois terços desse farelo é água, elemento majoritário no corpo humano, e é facilmente evaporada. As partes metálicas são separadas por eletromagnetismo.

Sobra apenas um pó orgânico que pode ser armazenado numa pequena caixa biodegradável (feita de amido de milho). Enterrada, torna-se húmus em poucos meses.

Susanne Wiigh-Mäsak, uma ex-bióloga marinha que fundou a Promessa, orienta os clientes do sistema a semear ou transferir mudas de plantas para a terra assim adubada, eternizando a lembrança dos entes queridos e, ao mesmo tempo, reforçando a idéia de que a morte recicla a vida. Segundo Susanne, “as tradições funerais de hoje em dia encobrem a realidade” e a promessão oferece “uma forma digna e ética de ser lembrado pelos que ficam”. As autoridades federais suecas apóiam-na. Na Inglaterra, onde conselhos municipais estão sendo pressionados a reduzir emissões de mercúrio, a idéia está ganhando força desde seu surgimento, há cerca de dois anos — especialmente porque se calcula que os cemitérios esgotarão seu espaço em dez anos.

Fatores como o gasto de energia causado pelo novo método (na manutenção de quantidades suficientes de nitrogênio em estado líqüido, por exemplo) não parecem ter sido computados ainda. Mas toda essa discussão amplia uma percepção: para minimizar os efeitos da ação do homem sobre o meio ambiente, até os gestos mais padronizados e enraizados na sociedade precisarão ser revistos.

Parece enredo de filme de terror, mas é notícia de jornal: saiu no Dallas Morning News (EUA). Em agosto, entomólogos visitaram um parque florestal a cerca de 70 quilômetros de Dallas, no Texas. Lá testemunharam a existência de uma teia de aranha que se estendia por quase 200 metros, espalhando-se pelo chão, arbustos e árvores.

Normalmente branca, a teia tinha um aspecto amarronzado devido aos milhares de mosquitos aprisionados nos fios.

Adoraria ter uma foto disso para mostrar.