Mundo


Faz sentido que a mídia mundial acompanhe de perto as eleições americanas. Afinal, o nome que aflorar do processo bizantino de eleições indiretas que parecem diretas, literalmente comandará o mundo sem restrições. Continuará uma tradição de 60 anos de ingerência (por meios claros ou escusos) em nações soberanas. Manterá a roda-viva do consumismo, amparado em crédito destemperado, às custas do desenvolvimento econômico exterior. Poderá jogar bombas em quaisquer países julgar interessante, sem impedimentos.

O processo eleitoral americano deve ser acompanhado por todos os seres humanos, sem exceção. Em jogo podem estar suas vidas.

Aos nomes, pois: John Edwards e Rudolph Giuliani acabaram de pular fora. O tosco Mitt Romney, felizmente, não tem chances reais. John McCain pode parecer um velhinho simpático, mas é um republicano. Barack Obama fala bem, mas só superficialmente. Ninguém sabe como fará o que afirma ser necessário fazer. E Hillary, nenhum brasileiro deve esquecer, foi ao menos parcialmente responsável pela evasão escoltada dos pilotos do jato Legacy que colidiu com o vôo 1907 da Gol. Sejam culpados ou não, jamais serão julgados agora.

Uma coisa, porém, dá certo alento. Nenhum deles é o atual presidente. Sempre que um genocida deixa o poder, renova-se minha esperança na humanidade. Não dura muito a sensação, mas comemoro mesmo assim.

Capa da edição 2006O Atlas de bolso da Dorling Kindersley, provavelmente a editora mais caprichosa do mundo, é um deleite. Mapas políticos e físicos de todas as regiões do planeta, além de fichas factuais de todas as nações, cabem num livrinho pouco maior que minha mão (embora com uns dois dedos de espessura). Tudo colorido, com sofisticação editorial e gráfica que não se encontra em muito livro maior e mais caro por aí.

Um ótimo diferencial são os inúmeros comentários distribuídos pelos mapas, trazendo informações vinculadas de geografia, história e outras ciências. Ofereço aos leitores um pouco de deliciosa cultura de almanaque:

  • O lugar do mundo onde mais venta é… a Antártida. Em Commonwealth Bay, junto à Terra de George V, foram registrados ventos com velocidade superior a 320 quilômetros por hora. Para se ter uma idéia, qualquer coisa acima de 118 Km/h é considerada furacão.
  • Em 14 de abril de 1986, uma chuva de granizo matou 92 pessoas na região de Gopalganj, em Bangladesh. As pedras de gelo que caíram do céu foram as mais pesadas que se tem notícia: um quilograma cada, em média.
  • No espaço aéreo da Costa do Marfim foi anotado o vôo mais alto de um pássaro: um abutre de Ruppell, avistado a impressionantes 37 mil pés, o que dá pouco mais de 11.200 metros de altitude. A rigor, seu vôo só ficou conhecido porque a ave foi atropelada por um jato comercial. Ganhou notoriedade póstuma.
  • A sauna é um hábito tão comum entre os finlandeses que existem cerca de 2 milhões de saunas comerciais e residenciais instaladas no país — para atender a uma população de 5 milhões de pessoas (em 2004).
  • No século 10, o Grande Vizir da Pérsia tinha o hábito de transportar sua biblioteca consigo toda vez que viajava. Os 117 mil volumes eram transportados por camelos — treinados para andar em fila que respeitava a ordem alfabética dos títulos.

Pertenço a uma geração de brasileiros criada por pais batalhadores; gente que construiu bases de vida nos últimos anos do “Milagre Econômico” e viu tudo erodir com a explosão da inflação e inépcia dos economistas da “Redemocratização”. Nós, nascidos na classe média dos anos 70, desfrutamos de uma infância com boas condições de vida e sentimos perdas a partir da adolescência. Nossos pais desfizeram-se de posses para cobrir os buracos dos “planos econômicos” deflagrados a partir de Sarney que culminaram, claro, num aventureiro como nunca antes houve tomando a Presidência da República.

Ajudei a expulsá-lo do Planalto caminhando aos brados pela Paulista, mas o dano já tinha sido feito — para minha família e para outras milhares compostas por empresários e empregadores, comerciantes, pagadores de impostos. Gente que lutava para que os filhos tivessem boas escolas, encarecidas devido à degringolação do ensino público. Tudo ficava cada vez mais difícil. O “buraco Brasil” parecia só crescer.

Cheguei à faculdade ouvindo planos de colegas para sair do país e tentar “a vida lá fora”. Achavam impossível ser feliz entre o Oiapoque e o Chuí. Pesava na consciência deles viver sem conseguir refazer os passos dos pais, o que era escancarado pelo fato de morarem com eles até depois dos trinta anos. Era menos uma reclamação sobre a falta de oportunidades do que uma vergonha silenciosa por não conseguir prover para si mesmos (e seus futuros filhos) aquilo que os pais tinham oferecido. Parecia ser uma solução rápida levar a vontade de trabalhar a um país — qualquer país — que pagasse melhor que o Brasil e tivesse menos complicações para quem desejasse viver honestamente.

Nesse caldo, não foram poucos os que vi irem embora. Até agora estão indo. De bate-pronto, lembro da minha prima: se mandou para a Inglaterra, casou-se e foi morar em Amsterdã. Meu melhor amigo de colégio formou-se engenheiro eletrônico e foi morar em Atlanta. Um casal de amigos cansou-se e foi criar dois filhos pequenos em Canberra. Outra amiga casou-se e está em Barcelona. Outro amigo, empregado numa multinacional, aproveitou uma transferência para Colônia (Alemanha) — depois recebeu uma oferta do escritório regional de Xangai, e para a China se foi. Um de meus melhores amigos casou-se com uma cidadã americana e foi viver perto da Filadélfia. Largou uma carreira de programador que o deprimia e arrumou trabalho em contato com a natureza. Só consigo vê-lo a cada dois ou três anos.

Muitos amigos de amigos tomaram o portão de embarque. Dez anos atrás a piada era comum: “o último a sair, apague as luzes do aeroporto”.

Por alguma razão, a maioria das pessoas queria ir para os Estados Unidos. Talvez tenha a ver com a hiperinflação dos anos 80, quando o dólar virou ao mesmo tempo referência comercial e objeto de desejo dos brasileiros. As pessoas vendiam imóveis, carros e outros bens cotando-os em moeda americana. Pensar em notas verdes (hoje seriam pretas) era uma garantia de satisfação, mesmo que na concretização da transação as cédulas fossem nacionais e caíssem de valor já no dia seguinte — a não ser que fossem aplicadas no overnight.

Era uma época estranha, em que carros usados custavam mais que novos, e funcionários de supermercados eram designados como remarcadores de preços. Não havia código de barras nas embalagens de produto; etiquetas individuais eram sobrepostas várias vezes por semana.

Mas veio o Real e, com ele, uma certa calmaria. Verão das férias internacionais fartas, com dólar adquirido a 1 real. Sensação, inicialmente superficial, de estabilidade. Novas práticas de economia multinacional, reforçadas pela Internet. Terceirização global de empregos.

Depois de anos de evasão, parece que o Brasil começa a se tornar atraente de novo. Não sei se para o pessoal capacitado, com vários anos de escola de alto nível nas costas e interesse em carreira de ponta em empresas pelo mundo. Mas certamente para o pessoal não tão escolarizado que saiu daqui com a cara e a coragem. E que, munido de visto de turista, foi lavar pratos ou pintar paredes em lugares como Boston, Newark e Miami. O mais surpreendente: estão voltando não por grandes melhorias no Brasil, mas por piora nos países que adotaram. Na balança, o Brasil se tornou mais interessante.

Há um milhão e cem mil brasileiros nos EUA segundo o Palácio do Itamaraty. Isso dá quatro a cinco vezes mais brasileiros no país do que contabiliza o governo Bush, o que ajuda a estabelecer a dimensão da ilegalidade. Sabe-se que centenas de milhares de brasileiros de classe média residem ilegalmente nos Estados Unidos, alguns há mais de uma década. No entanto, recessão econômica, queda no valor do dólar e principalmente as leis anti-imigração mais severas da história estão fazendo muitos deles empacotar as coisas e voltar. Segundo uma reportagem publicada no New York Times, líderes comunitários, consulados e agências de viagem são unânimes em afirmar: o embarque só de ida para o Brasil está cada vez mais comum.

Para esses ilegais fugidios, a saída dos EUA sela uma proibição legal de dez anos sem possibilidade de reentrada no país. Não é pouco, se considerarmos que alguns casais brasileiros que tentaram fazer a vida lá fora estão até deixando para trás filhos crescidos em solo americano.

Entre várias razões apontadas pelos egressantes, uma se destaca: a impossibilidade de renovar a carteira de motorista. Até aproximadamente o ano 2000, o governo da Flórida podia emitir carteiras de motorista, válidas por oito anos, a estrangeiros com visto de turista. De lá para cá, a legislação endureceu. As carteiras não podem mais ser renovadas sem que os papéis de imigração do portador estejam em ordem. E as carteiras estão expirando.

Diante da falta de transporte público na Flórida, um lugar onde automóvel particular é praticamente sinônimo de cidadania, isso significa que os ilegais estão dirigindo até o trabalho com medo. Com a expiração das carteiras, distrair-se e atravessar um semáforo vermelho pode desagüar em meses de detenção no Departamento de Imigração. Para muitos dos brasileiros, essa é a gota d’água. O pavor de viver com medo da Imigração não compensa mais.

Em lugares como Massachussetts, onde existe transporte público, os problemas são outros: operações cada vez mais intensas para localizar e deportar ilegais, e venda de imóveis outrora alugados por eles, na enorme confusão que se tornou o mercado imobiliário americano (uma explicação clara sobre essa história de “subprime” foi dada pela jornalista Patrícia Campos Melo em seu blog).

Seja como for, o país de Bush não está dando trégua. A família de J. O. B., curitibano de 42 anos que deixou para trás a carreira de professor para trabalhar na construção civil nos EUA, sabe disso. Entrevistado pelo NYT, contou que, na chegada aos EUA, em 1996, dormia com a mulher e o filho no porão da casa de um amigo. No auge da “carreira” de emigrado, já possuía seu próprio negócio de obras hidráulicas, que empregava sete conterrâneos e faturava 6 mil dólares por semana. Mas a partir de 2005, veio a queda. Os sindicatos passaram a exigir das construtoras que contratassem apenas firmas com empregados legalmente aptos a trabalhar no país, situação que lhe prensou contra a parede.

Sem perspectiva real de obter o green card (confessa que gastou 26 mil dólares em chances duvidosas de obtenção), e com a carteira de motorista vencida, J. e sua esposa B. jogaram a toalha. Trazem ao Brasil a filha M., 10 anos, para viver nas terras que compraram no Brasil com o dinheiro guardado; tentarão produzir cana para etanol. O filho T., 21 anos, fica para trás temporariamente. Reluta em deixar a terra a que chama “lar”. Os pais esperam que ele decida se juntar à família no Brasil dentro de um ou dois anos. Certamente não poderão reentrar nos EUA para vê-lo antes de uma década.

Muitos brasileiros estão surfando a mesma onda rumo ao Atlântico Sul: 150 reservas de bilhete só de ida para o Brasil são feitas a cada dia no aeroporto John F. Kennedy. Os vôos estão lotados até fevereiro.

Ainda é cedo para dizer se Governador Valadares vai festejar a volta de seus cidadãos ou chorar a perda da renda extra, mas a tendência parece uma só: os brasileiros estão voltando.

Talvez estejamos, aqui, menos mal do que pensamos.

Todo mundo tem um palpite sobre como será campeonato mundial de futebol de 2014. Eis o meu: será mais ou menos o que foi o Pan 2007, ou seja, dará tudo certo no final das contas. Alguns erros serão anotados, mas se até no Mundial da Alemanha o teto do estádio vazou um agüaceiro, não haverá quem se lembre muito deles. Afinal, o destino sinalizou a necessidade de um mínimo esforço de arrumação: o incidente na Fonte Nova ocorreu poucas semanas após ouvirmos a confirmação da sede do Mundial 2014. No Brasil, sempre morrem alguns para que o poder público se mexa com celeridade.

O problema relacionado ao Mundial 2014 certamente não será ligado ao futebol em si, mas à perpetuação do modelo de “cartolagem” que já cansou de encher páginas policiais e desesperançou todos os brasileiros fãs de esporte com três ou quatro neurônios funcionando. O presidente da confederação brasileira é um excelente assunto para reflexão: a história de um advogado comum que se casou com a filha do rei e virou príncipe, para nunca mais sair do trono. Monarquia é a única forma de governo que explica a perpetuação de um sujeito conivente com tamanho atraso e descarada demonstração contínua de conveniências a cada novo campeonato regional, nacional ou internacional. Um povo cordeiro e desenergizado pela faina diária não deve ter forças para ir à rua e exigir sua renúncia — se nem os impostos extorsivos nós combatemos, porque o faríamos com mero lazer televisivo?

A Seleção Brasileira é a guarda real. O entronado escuda-se nas idolatradas armaduras canárias para manter o povo feliz consigo. O que se estranha é que nem mesmo a fragorosa derrota de 2006 — a segunda nos pés do desafiador Zidane, diga-se — foi capaz de lançar adagas contra o rei.

Fossem estes tempos renascentistas, a elite despregada do poder atiçaria as massas contra o rei e seus lordes espalhados nas confederações estaduais, e concomitantemente contrataria um exército mercenário para fazer o trabalho de força. Mas aqui, agora, nem Ministérios Públicos estaduais e federal foram capazes de se organizar a contento. Os cartolas se provaram mais espertos.

Que tão baixas formas de vida se apoderem do futebol brasileiro e extraiam a vitalidade do hospedeiro até que se torne pústula é uma reflexão que fiz hoje, pasmem, por influência de um norte-americano.

Franklin Foer nasceu nos EUA num tempo em que futebol só era transmitido pela tevê de seu país em Copa do Mundo. Eventualmente, umas reprises de partidas dos campeonatos alemão e italiano aos Domingos pela manhã, e só. Descobriu que não se dava com a bola nos pés bem cedo, freqüentando uma das escolinhas fundadas num modismo que encantava pais americanos da geração baby boomer, a partir do final dos anos 60. Mas a paixão pelo esporte cresceu com ele. Já adulto e formado jornalista, com currículo de contribuições ao Wall Street Journal, New York Times, Slate e Spin, decidiu fazer algo que deixaria muito brasileiro morrendo de inveja. Passou oito meses visitando vários estádios emblemáticos mundo afora e compilando informações com jornalistas e cronistas de cada país. Assistiu a jogos clássicos e entrevistou figuras visceralmente ligadas à bola. Convenceu seu agente (e depois uma editora) que seria uma boa idéia tecer comentários sobre a espiritualidade transnacional do esporte mais popular de todos, e sua relação direta com a globalização da economia. O resultado é um livro fascinante do começo ao fim: How Soccer Explains the World (editora HarperCollins).

Cada capítulo trata de um canto de mundo onde o futebol tem um papel além do puro exercício atlético — e por acaso haverá lugar aonde o futebol se restrinja a isso? A paixão de Foer pelo esporte é evidente no capítulo sobre o Barça (o maior defeito editorial do livro é não imprimir cedilhas), mas as partidas que pincela têm significado mais político do que esportivo, e correm em todos os lugares. Ele está interessado em sentar-se nas arquibancadas e olhar para os torcedores — em como suas práticas na arena refletem suas bases culturais. Também está interessado em visitar os clubes e seu entorno, para entender como a própria fundação e manutenção das agremiações reflete o contexto social e político de sua época.

É nas pessoas, e não no esporte em si, que Foer se concentra; é delas que saem as peças mais instigantes de seu raciocínio. Ao dar voz e analisar figuras tão díspares como um hooligan inglês e um nigeriano contratado pelos Cárpatos para treinar a 25 graus centígrados negativos, ele humaniza seu retrato do esporte que é uma fascinante mescla de dinheiro globalizado e ressentimentos regionais; um canal de vociferação contra regimes políticos; um pivô de resistência (ou de abraço) à transformação; um centro de instilação de domínio em regimes totalitários ou corruptamente democráticos.

O Brasil está lá, bem resumido: do Pelé “calado e poeta” ao Pelé que abraçou Ricardo Teixeira e fez o jornalista José Trajano lamentar a morte da decência no esporte; da exportação de craques para compensar os rombos de parcerias com grupos internacionais, como ISL e Hicks Muse (a patética opereta MSI foi descortinada após a publicação do livro, o que é uma pena); e de muitas outras “particularidades”. Enfim, o retrato da corrupção que todos nós conhecemos muito bem, mas que, lido em inglês, torna-se mais duro, mais incômodo: é um visitante implicitamente cutucando nossa permissividade, e dizendo, afinal de contas, a mais pura verdade.

Mas o Brasil é fichinha perto do que se faz em nome do futebol pelo mundo. Estão no livro agremiações de fãs violentos que se tornaram instrumentos paramilitares nas guerras dos Bálcãs; mulheres loucas por futebol que forçaram mulás iranianos a rever regras teocráticas sobre comportamento; e um novo olhar sobre o conflito católico-protestante, não exatamente na Irlanda, mas na ancestral rivalidade entre os dois maiores times da Escócia. E mais… oligarcas italianos, catalães opositores ao Franquismo, escretes judaicos reais ou imaginários, e conservadorismo norte-americano. Tudo entremeado ao futebol, o esporte mais popular do planeta, e conseqüentemente, o maior veículo de paixões coletivas que existe. Certamente o livro mais interessante que li este ano, por tratar não exatamente de esporte, mas do mundo espelhado pelo esporte. Evidencia que “pátria de chuteiras” é qualquer coisa, menos uma exclusividade brasileira.


Pouco antes de terminar este texto, resolvi checar se o livro foi lançado no Brasil. Sim, foi. A editora Jorge Zahar oferece o prólogo para leitura.

No mundo globalizado, até Papai Noel precisa otimizar seus processos. Para auxiliar o bom velhinho, uma empresa sueca de consultoria analisou a logística da entrega de presentes na noite de Natal. Em busca do melhor trajeto possível, foram computados fatores como a rotação da Terra e as áreas do globo com maior densidade de crianças.

O diagnóstico: para garantir o menor esforço, Papai Noel precisará mover sua base de operações para um lugar bem mais árido que o Pólo Norte: as montanhas do Quirguistão, na fronteira com o Cazaquistão. Usuários curiosos de GPS podem até pegar as coordenadas na notícia publicada pela BBC.

Fica a dúvida: será que as renas se adaptarão à altitude, ou terão de ser substituídas por cabritos monteses?