Livros


Capa da edição 2006O Atlas de bolso da Dorling Kindersley, provavelmente a editora mais caprichosa do mundo, é um deleite. Mapas políticos e físicos de todas as regiões do planeta, além de fichas factuais de todas as nações, cabem num livrinho pouco maior que minha mão (embora com uns dois dedos de espessura). Tudo colorido, com sofisticação editorial e gráfica que não se encontra em muito livro maior e mais caro por aí.

Um ótimo diferencial são os inúmeros comentários distribuídos pelos mapas, trazendo informações vinculadas de geografia, história e outras ciências. Ofereço aos leitores um pouco de deliciosa cultura de almanaque:

  • O lugar do mundo onde mais venta é… a Antártida. Em Commonwealth Bay, junto à Terra de George V, foram registrados ventos com velocidade superior a 320 quilômetros por hora. Para se ter uma idéia, qualquer coisa acima de 118 Km/h é considerada furacão.
  • Em 14 de abril de 1986, uma chuva de granizo matou 92 pessoas na região de Gopalganj, em Bangladesh. As pedras de gelo que caíram do céu foram as mais pesadas que se tem notícia: um quilograma cada, em média.
  • No espaço aéreo da Costa do Marfim foi anotado o vôo mais alto de um pássaro: um abutre de Ruppell, avistado a impressionantes 37 mil pés, o que dá pouco mais de 11.200 metros de altitude. A rigor, seu vôo só ficou conhecido porque a ave foi atropelada por um jato comercial. Ganhou notoriedade póstuma.
  • A sauna é um hábito tão comum entre os finlandeses que existem cerca de 2 milhões de saunas comerciais e residenciais instaladas no país — para atender a uma população de 5 milhões de pessoas (em 2004).
  • No século 10, o Grande Vizir da Pérsia tinha o hábito de transportar sua biblioteca consigo toda vez que viajava. Os 117 mil volumes eram transportados por camelos — treinados para andar em fila que respeitava a ordem alfabética dos títulos.

Todo mundo tem um palpite sobre como será campeonato mundial de futebol de 2014. Eis o meu: será mais ou menos o que foi o Pan 2007, ou seja, dará tudo certo no final das contas. Alguns erros serão anotados, mas se até no Mundial da Alemanha o teto do estádio vazou um agüaceiro, não haverá quem se lembre muito deles. Afinal, o destino sinalizou a necessidade de um mínimo esforço de arrumação: o incidente na Fonte Nova ocorreu poucas semanas após ouvirmos a confirmação da sede do Mundial 2014. No Brasil, sempre morrem alguns para que o poder público se mexa com celeridade.

O problema relacionado ao Mundial 2014 certamente não será ligado ao futebol em si, mas à perpetuação do modelo de “cartolagem” que já cansou de encher páginas policiais e desesperançou todos os brasileiros fãs de esporte com três ou quatro neurônios funcionando. O presidente da confederação brasileira é um excelente assunto para reflexão: a história de um advogado comum que se casou com a filha do rei e virou príncipe, para nunca mais sair do trono. Monarquia é a única forma de governo que explica a perpetuação de um sujeito conivente com tamanho atraso e descarada demonstração contínua de conveniências a cada novo campeonato regional, nacional ou internacional. Um povo cordeiro e desenergizado pela faina diária não deve ter forças para ir à rua e exigir sua renúncia — se nem os impostos extorsivos nós combatemos, porque o faríamos com mero lazer televisivo?

A Seleção Brasileira é a guarda real. O entronado escuda-se nas idolatradas armaduras canárias para manter o povo feliz consigo. O que se estranha é que nem mesmo a fragorosa derrota de 2006 — a segunda nos pés do desafiador Zidane, diga-se — foi capaz de lançar adagas contra o rei.

Fossem estes tempos renascentistas, a elite despregada do poder atiçaria as massas contra o rei e seus lordes espalhados nas confederações estaduais, e concomitantemente contrataria um exército mercenário para fazer o trabalho de força. Mas aqui, agora, nem Ministérios Públicos estaduais e federal foram capazes de se organizar a contento. Os cartolas se provaram mais espertos.

Que tão baixas formas de vida se apoderem do futebol brasileiro e extraiam a vitalidade do hospedeiro até que se torne pústula é uma reflexão que fiz hoje, pasmem, por influência de um norte-americano.

Franklin Foer nasceu nos EUA num tempo em que futebol só era transmitido pela tevê de seu país em Copa do Mundo. Eventualmente, umas reprises de partidas dos campeonatos alemão e italiano aos Domingos pela manhã, e só. Descobriu que não se dava com a bola nos pés bem cedo, freqüentando uma das escolinhas fundadas num modismo que encantava pais americanos da geração baby boomer, a partir do final dos anos 60. Mas a paixão pelo esporte cresceu com ele. Já adulto e formado jornalista, com currículo de contribuições ao Wall Street Journal, New York Times, Slate e Spin, decidiu fazer algo que deixaria muito brasileiro morrendo de inveja. Passou oito meses visitando vários estádios emblemáticos mundo afora e compilando informações com jornalistas e cronistas de cada país. Assistiu a jogos clássicos e entrevistou figuras visceralmente ligadas à bola. Convenceu seu agente (e depois uma editora) que seria uma boa idéia tecer comentários sobre a espiritualidade transnacional do esporte mais popular de todos, e sua relação direta com a globalização da economia. O resultado é um livro fascinante do começo ao fim: How Soccer Explains the World (editora HarperCollins).

Cada capítulo trata de um canto de mundo onde o futebol tem um papel além do puro exercício atlético — e por acaso haverá lugar aonde o futebol se restrinja a isso? A paixão de Foer pelo esporte é evidente no capítulo sobre o Barça (o maior defeito editorial do livro é não imprimir cedilhas), mas as partidas que pincela têm significado mais político do que esportivo, e correm em todos os lugares. Ele está interessado em sentar-se nas arquibancadas e olhar para os torcedores — em como suas práticas na arena refletem suas bases culturais. Também está interessado em visitar os clubes e seu entorno, para entender como a própria fundação e manutenção das agremiações reflete o contexto social e político de sua época.

É nas pessoas, e não no esporte em si, que Foer se concentra; é delas que saem as peças mais instigantes de seu raciocínio. Ao dar voz e analisar figuras tão díspares como um hooligan inglês e um nigeriano contratado pelos Cárpatos para treinar a 25 graus centígrados negativos, ele humaniza seu retrato do esporte que é uma fascinante mescla de dinheiro globalizado e ressentimentos regionais; um canal de vociferação contra regimes políticos; um pivô de resistência (ou de abraço) à transformação; um centro de instilação de domínio em regimes totalitários ou corruptamente democráticos.

O Brasil está lá, bem resumido: do Pelé “calado e poeta” ao Pelé que abraçou Ricardo Teixeira e fez o jornalista José Trajano lamentar a morte da decência no esporte; da exportação de craques para compensar os rombos de parcerias com grupos internacionais, como ISL e Hicks Muse (a patética opereta MSI foi descortinada após a publicação do livro, o que é uma pena); e de muitas outras “particularidades”. Enfim, o retrato da corrupção que todos nós conhecemos muito bem, mas que, lido em inglês, torna-se mais duro, mais incômodo: é um visitante implicitamente cutucando nossa permissividade, e dizendo, afinal de contas, a mais pura verdade.

Mas o Brasil é fichinha perto do que se faz em nome do futebol pelo mundo. Estão no livro agremiações de fãs violentos que se tornaram instrumentos paramilitares nas guerras dos Bálcãs; mulheres loucas por futebol que forçaram mulás iranianos a rever regras teocráticas sobre comportamento; e um novo olhar sobre o conflito católico-protestante, não exatamente na Irlanda, mas na ancestral rivalidade entre os dois maiores times da Escócia. E mais… oligarcas italianos, catalães opositores ao Franquismo, escretes judaicos reais ou imaginários, e conservadorismo norte-americano. Tudo entremeado ao futebol, o esporte mais popular do planeta, e conseqüentemente, o maior veículo de paixões coletivas que existe. Certamente o livro mais interessante que li este ano, por tratar não exatamente de esporte, mas do mundo espelhado pelo esporte. Evidencia que “pátria de chuteiras” é qualquer coisa, menos uma exclusividade brasileira.


Pouco antes de terminar este texto, resolvi checar se o livro foi lançado no Brasil. Sim, foi. A editora Jorge Zahar oferece o prólogo para leitura.

Uma lista claramente feita para se discordar: o site da revista americana Wizard publicou um artigo com as “50 armas mais mais” da história da ficção popular (criações de 30 anos, no máximo). Para entrar na lista, dois critérios: a arma precisa ser fisicamente utilizável por uma pessoa, usando apenas suas mãos e/ou braços (o que anula a participação a Estrela da Morte, como notam os editores) e não pode ser algo adquirível no mundo real. Regra desnecessária, aliás: nem mesmo a Desert Eagle calibre 50 de Snatch, Porcos e Diamantes se compara a qualquer dos itens listados.

Vá esquentando sua raiva: a Espada Justiceira dos Thundercats (11ª posição) perdeu feio para a espada do He-Man (vice-campeã). A posição 42 de outra espada, Stormbringer, ao menos me dá um alento: Michael Moorcock foi lembrado (ainda que provavelmente por causa de adaptações de quadrinhos).

Menos gostei da grande proporção de mangás e videogames na lista, mas fazer o quê? O mundo é cada vez mais nipônico. Maior decepção: o ultrapassado e babaca escudo do mui ridículo Capitão América levou o 6º lugar.

Mas nada, absolutamente nada choca tanto quanto a ausência total das garras do Wolverine. Cinqüenta armas e nada de adamantium?! Qual é…

Enfim, veja por si mesmo e comente.


O título é uma lembrança do finado “Novo Universo Marvel”. Alguém se lembra do Estigma? Aquilo sim, era uma arma respeitável!