Esportes


Todo mundo tem um palpite sobre como será campeonato mundial de futebol de 2014. Eis o meu: será mais ou menos o que foi o Pan 2007, ou seja, dará tudo certo no final das contas. Alguns erros serão anotados, mas se até no Mundial da Alemanha o teto do estádio vazou um agüaceiro, não haverá quem se lembre muito deles. Afinal, o destino sinalizou a necessidade de um mínimo esforço de arrumação: o incidente na Fonte Nova ocorreu poucas semanas após ouvirmos a confirmação da sede do Mundial 2014. No Brasil, sempre morrem alguns para que o poder público se mexa com celeridade.

O problema relacionado ao Mundial 2014 certamente não será ligado ao futebol em si, mas à perpetuação do modelo de “cartolagem” que já cansou de encher páginas policiais e desesperançou todos os brasileiros fãs de esporte com três ou quatro neurônios funcionando. O presidente da confederação brasileira é um excelente assunto para reflexão: a história de um advogado comum que se casou com a filha do rei e virou príncipe, para nunca mais sair do trono. Monarquia é a única forma de governo que explica a perpetuação de um sujeito conivente com tamanho atraso e descarada demonstração contínua de conveniências a cada novo campeonato regional, nacional ou internacional. Um povo cordeiro e desenergizado pela faina diária não deve ter forças para ir à rua e exigir sua renúncia — se nem os impostos extorsivos nós combatemos, porque o faríamos com mero lazer televisivo?

A Seleção Brasileira é a guarda real. O entronado escuda-se nas idolatradas armaduras canárias para manter o povo feliz consigo. O que se estranha é que nem mesmo a fragorosa derrota de 2006 — a segunda nos pés do desafiador Zidane, diga-se — foi capaz de lançar adagas contra o rei.

Fossem estes tempos renascentistas, a elite despregada do poder atiçaria as massas contra o rei e seus lordes espalhados nas confederações estaduais, e concomitantemente contrataria um exército mercenário para fazer o trabalho de força. Mas aqui, agora, nem Ministérios Públicos estaduais e federal foram capazes de se organizar a contento. Os cartolas se provaram mais espertos.

Que tão baixas formas de vida se apoderem do futebol brasileiro e extraiam a vitalidade do hospedeiro até que se torne pústula é uma reflexão que fiz hoje, pasmem, por influência de um norte-americano.

Franklin Foer nasceu nos EUA num tempo em que futebol só era transmitido pela tevê de seu país em Copa do Mundo. Eventualmente, umas reprises de partidas dos campeonatos alemão e italiano aos Domingos pela manhã, e só. Descobriu que não se dava com a bola nos pés bem cedo, freqüentando uma das escolinhas fundadas num modismo que encantava pais americanos da geração baby boomer, a partir do final dos anos 60. Mas a paixão pelo esporte cresceu com ele. Já adulto e formado jornalista, com currículo de contribuições ao Wall Street Journal, New York Times, Slate e Spin, decidiu fazer algo que deixaria muito brasileiro morrendo de inveja. Passou oito meses visitando vários estádios emblemáticos mundo afora e compilando informações com jornalistas e cronistas de cada país. Assistiu a jogos clássicos e entrevistou figuras visceralmente ligadas à bola. Convenceu seu agente (e depois uma editora) que seria uma boa idéia tecer comentários sobre a espiritualidade transnacional do esporte mais popular de todos, e sua relação direta com a globalização da economia. O resultado é um livro fascinante do começo ao fim: How Soccer Explains the World (editora HarperCollins).

Cada capítulo trata de um canto de mundo onde o futebol tem um papel além do puro exercício atlético — e por acaso haverá lugar aonde o futebol se restrinja a isso? A paixão de Foer pelo esporte é evidente no capítulo sobre o Barça (o maior defeito editorial do livro é não imprimir cedilhas), mas as partidas que pincela têm significado mais político do que esportivo, e correm em todos os lugares. Ele está interessado em sentar-se nas arquibancadas e olhar para os torcedores — em como suas práticas na arena refletem suas bases culturais. Também está interessado em visitar os clubes e seu entorno, para entender como a própria fundação e manutenção das agremiações reflete o contexto social e político de sua época.

É nas pessoas, e não no esporte em si, que Foer se concentra; é delas que saem as peças mais instigantes de seu raciocínio. Ao dar voz e analisar figuras tão díspares como um hooligan inglês e um nigeriano contratado pelos Cárpatos para treinar a 25 graus centígrados negativos, ele humaniza seu retrato do esporte que é uma fascinante mescla de dinheiro globalizado e ressentimentos regionais; um canal de vociferação contra regimes políticos; um pivô de resistência (ou de abraço) à transformação; um centro de instilação de domínio em regimes totalitários ou corruptamente democráticos.

O Brasil está lá, bem resumido: do Pelé “calado e poeta” ao Pelé que abraçou Ricardo Teixeira e fez o jornalista José Trajano lamentar a morte da decência no esporte; da exportação de craques para compensar os rombos de parcerias com grupos internacionais, como ISL e Hicks Muse (a patética opereta MSI foi descortinada após a publicação do livro, o que é uma pena); e de muitas outras “particularidades”. Enfim, o retrato da corrupção que todos nós conhecemos muito bem, mas que, lido em inglês, torna-se mais duro, mais incômodo: é um visitante implicitamente cutucando nossa permissividade, e dizendo, afinal de contas, a mais pura verdade.

Mas o Brasil é fichinha perto do que se faz em nome do futebol pelo mundo. Estão no livro agremiações de fãs violentos que se tornaram instrumentos paramilitares nas guerras dos Bálcãs; mulheres loucas por futebol que forçaram mulás iranianos a rever regras teocráticas sobre comportamento; e um novo olhar sobre o conflito católico-protestante, não exatamente na Irlanda, mas na ancestral rivalidade entre os dois maiores times da Escócia. E mais… oligarcas italianos, catalães opositores ao Franquismo, escretes judaicos reais ou imaginários, e conservadorismo norte-americano. Tudo entremeado ao futebol, o esporte mais popular do planeta, e conseqüentemente, o maior veículo de paixões coletivas que existe. Certamente o livro mais interessante que li este ano, por tratar não exatamente de esporte, mas do mundo espelhado pelo esporte. Evidencia que “pátria de chuteiras” é qualquer coisa, menos uma exclusividade brasileira.


Pouco antes de terminar este texto, resolvi checar se o livro foi lançado no Brasil. Sim, foi. A editora Jorge Zahar oferece o prólogo para leitura.

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A única coisa que sobra para comentar, em se tratando de Corinthians hoje, foi a choradeira no Estádio Olímpico incessantemente retratada pela TV. Os corintianos mostraram desconsolo, reza, desespero — amor ao clube, enfim. Depois do espetáculo na última desclassificação da Libertadores, em pleno Pacaembu, eu esperava qualquer coisa bem pior: cenas de cerco a jogadores, palavras de ordem ameaçadoras e por aí vai. Vamos ver o que acontecerá no retorno a São Paulo.

O jovem político Felipe, que escapa ileso de qualquer acusação, soube aproveitar o momento para fazer outro gesto teatral, desta vez pedindo desculpas. Joga para a torcida, como se diz, mas é um ótimo goleiro e o ano de 2008 saberá reservar-lhe um destino melhor, talvez isolado de seus confrades.

De resto, que voltem campeões pela Série B, ou darão ainda mais munição aos palmeirenses.


Eu diria que a coisa mais triste desse Campeonato Brasileiro não foi o baixo nível do futebol, responsável pela entrega antecipada do título ao único time com doses regulares de estrutura e profissionalismo (talvez exagerado, dado o pragmatismo dentro de campo). Também não foi o escoramento de times inteiros em jogadores para lá de gastos, como Edmundo, Paulo Baier e o “tetra” Vampeta (quatro times rebaixados em cinco anos, se não errei as contas). Foi, isso sim, a presença midiática do Sr. Presidente da República no âmbito do futebol, dando palpite sem cabimento até em suspeitas de doping. Alguém deveria ensinar-lhe a cuidar de assuntos que lhe competem — assuntos muito mais prementes, diga-se.

Minha amiga Lu contou uma interessante história sobre a Fonte Nova, palco da tragédia mais anunciada do Brasil em 2007. Ao passear de táxi em Salvador, topou com um estádio que a princípio pensou ser a famosa Fonte Nova, sede do Esporte Clube Bahia – mas descartou a idéia porque o estado geral indicava uma construção há muito abandonada. Curiosa, perguntou ao taxista que lugar era aquele, e o sujeito, adivinhem, confirmou: “É a Fonte Nova!”

Isso aconteceu há mais de um ano. De lá para cá, o que mudou? De abandono, virou desastre. O ilustre Bobô, ex-jogador de certa fama no futebol paulista, hoje na Superintendência de Desportos da Bahia, passou o último domingo diante das câmeras de TV tentando justificar o injustificável.

 O fato é: desabou parte da arquibancada, e morreu uma porção de gente. Qualquer pessoa em sã consciência, olhando as imagens pela TV, veria que o concreto rivalizava em podridão com o do “esqueleto da Juscelino”, imenso prédio público que não passou do arcabouço e ficou anos a fio largado na Marginal Pinheiros, como monumento ao escárnio estatal e ao desperdício de dinheiro público.

Agora, o ilustre governador Jacques Wagner anuncia aos quatro ventos da mídia a implosão do venerável palco de futebol baiano e os planos para um novo estádio, mais moderno, em conformidade com as exigências da Copa 2014. O povo aplaude, o bafo de modernidade sacode a tristeza, e vamos ao futuro!

 Enquanto isso, os familiares da tragédia receberão da seguradora 25 mil reais por parente perdido.

 Em nota oficial, o governador destacou que, mesmo com a decisão de implodir o estádio, a apuração das causas do acidente irá continuar. Alguém aposta alguma coisa nisso?

O Ministério Público deve decidir se irá incluir a Federação Baiana de Futebol e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) entre os responsáveis pelo acidente ocorrido no domingo, que envolveu aproximadamente 60 pessoas. Inicialmente, a responsabilidade pelo acidente é da Superintendência dos Desportos do Estado da Bahia (Sudesb), que administra o estádio.

Tramita na Justiça desde 2006 um pedido de interdição da Fonte Nova. Desde então, a promotoria vem pedindo o julgamento da ação civil pública. Até agora, nada.

Donde se vê que quase uma dezena de pessoas morreu por uma combinação de fatores bem brasileiros: omissão do poder público e lentidão da Justiça brasileira. É a triste história de sempre.

Uma dessas coisas que, cedo ou tarde, vai “cair na rede”, como se diz.

Jogo de futebol americano entre as universidades CalTech e Michigan State. No intervalo, entra a banda marcial em campo para entreter a platéia. Não são muito afinados, diga-se — mas o repertório e o esforço em representá-lo vale nota 10. A cena merecia registro por uma câmera aérea profissional (ou ao menos uma filmagem do lado certo do campo).

http://glumbert.com/media/marchingband (vídeo em Flash, cerca de 6 minutos)

Desafio meus visitantes a identificarem os games representados no show…

Duas de esporte no mesmo dia? E ainda por cima, futebol? Desculpem, desinteressados: domingão é assim.

O Palmeiras foi a Porto Alegre, cidade onde tem retrospecto pífio em Brasileiros, para encarar a Inter do campeão mundial Fernandão, que eu respeito muito e quero no meu time. Fernandão cravou a vitória no segundo tempo com uma patada de primeira que deu gosto ver. O Verdão não jogou bem, mas o infeliz juiz Tardelli anulou um gol legítimo do Makelele logo no começo. Com ele, teríamos ao menos empatado em 2 a 2, graças à magnífica bicicleta do Rodrigão no último minuto de jogo. Mas ficamos mesmo em 1 a 2.

A comemoração do Rodrigão, um grito enérgico de frustração liberada, é o mesmo da torcida palestrina. Poderia ser traduzido assim: Caio Jr. deu-nos um time, vá, mas falta gente com brilho nesse elenco. Coesão nesse grupo, se um dia houve, parece que está se esfacelando conforme o ano termina. Vamos ver o que dirá a Lu.

Agora é ir ao Parque torcer contra o Atlético Mineiro. Se ganharmos, iremos à Libertadores sem nos preocuparmos com mais ninguém.

Não é que eu tenha predileção por automobilismo, na verdade mal presto atenção nisso… mas gosto de reconhecer as figuras transcedentais de qualquer esporte.

Para o “desafio de kart” organizado por Felipe Massa para juntar seus amigos no final de ano, vieram Rubens Barrichello, Nelsinho Piquet, Tony Kanaan, Ricardo Zonta, Antonio Pizzonia, Alexandre Barros (motovelocidade), Felipe Giaffone (virtual campeão da F-Truck neste ano), Cacá Bueno (campeão da Stock Car), entre muitos outros.

Veio também Michael Schumacher.

Acertou seu kart praticamente sozinho (o mecânico sorteado para ajudá-lo ficou boquiaberto), foi para a pista, classificou-se para largar na segunda fila. Venceu a primeira bateria e cumpriu seu plano de pontuar sem muito esforço na segunda. Recebeu o troféu das mãos do governador de Santa Catarina, que torcia por Barrichello.

Schumacher não corria numa prova desde 2006.

Luciano Burti resumiu com perfeição: “ele é excepcional, ficou um ano parado, veio aqui e deu um pau em todos nós”.