Consumo


As criações publicitárias destinadas ao McDonald’s brasileiro se condensam magistralmente na folha que recobre a bandeja de seus “restaurantes” (como a rede os chama). Refiro-me ao papel onde o atendente de balcão apóia o hambúrguer, refrigerante e batata frita do seu pedido. No jargão publicitário, tem o nome de lâmina.

Recentemente, passei por um “Mac” e fiquei impressionado com uma belíssima criação impressa na lâmina. Peguei um exemplar descartado e limpo para estudar em casa. O tema daquela tiragem era uma sátira aos catálogos de venda pela Internet (no meu tempo de criança, catálogos de venda por “reembolso postal”), temperada por futurismo dedicado ao conforto da humanidade. Uma galeria de utilidades domésticas imaginárias me saudava, como se aquilo fosse um folheto explicando recursos técnicos daquela aparelhagem toda. Adoraria ter na vida real, por exemplo, um Casacold 1000 tal como apresentado. Garantiria ausência de suor nas minhas caminhadas pela cidade no verão. Moldado, ainda por cima, na última tendência da moda (verde), pois seria refrigerado à custa do “novíssimo gás coruscante nitroso, que não agride o meio-ambiente”.

Pena que tudo isso tenha o efeito de tirar a atenção da informação nutricional da comida servida no McDonald’s, grafada em letras miúdas no verso da lâmina ilustrada. Quem quer leitura chata quando se pode aproveitar brincadeiras coloridas?

Pôster de campanha da prefeitura de Nova York contra a gordura transQualquer pessoa que se dê ao trabalho de virar a folha e fizer poucas operações matemáticas terá sérias dúvidas quanto ao papel que o McDonald’s tem na alimentação infantil. Calorias demais, sódio demais, gordura demais. Ainda mais levando-se em conta que os percentuais exibidos são calculados com base na dieta de 2.000 Kcal de um adulto.

Pode-se ter uma alimentação saudável no McDonald’s? Certamente; há maçãs à venda. Água de coco. Cenouras.

Agora me diga, você já foi ao McDonald’s e pediu qualquer um desses itens? Seus filhos já pediram para você levá-los ao McDonald’s para comer maçã? Já pediram para você comprar as cenouras?

Todos os sanduíches do McDonald’s contêm dosagens de gordura trans. Está escrito no verso da lâmina. As sobremesas também têm doses de gordura trans; só as maçãs (não a torta de maçã, notem bem) e a salada de frutas escapam. Até o iogurte com frutas vermelhas e cereais, coisa que a maioria de nós consideraria “saudável”, tem gordura trans.

Por que se insiste tanto em falar de “gordura trans”, hoje em dia? Porque se trata de algo que não contribui de nenhuma forma positiva para a nutrição humana, e aumenta o risco de doenças do coração. Simples assim.

Segundo informa a Wikipédia, a vasta maioria das gorduras trans consumida atualmente é criada pela indústria de processamento de alimentos. Pode-se dizer que a gordura trans é um “efeito colateral” do processo de hidrogenação de gorduras de origem vegetal — ou seja, da produção de gordura vegetal hidrogenada, item corriqueiro nos alimentos industrializados.

A Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos já concluiu que não existe nível seguro ou adequado de consumo de gordura trans. Não há “ingestão diária recomendada”, nem mesmo um limite tolerável. Qualquer consumo de gordura trans aumenta o risco de doenças coronarianas (cardíacas).

Mais e mais países estudam restrições sérias ou proibição do uso de gordura trans no hemisfério norte. O pôster que ilustra este texto, uma campanha da municipalidade de Nova York, reflete a preocupação presente até em governos locais.

A mensagem, caros leitores, é clara: muito cuidado com o que comem e o que dão de comer a seus filhos.

Chris Jordan é um artista norte-americano que instiga observadores a pensar nas armadilhas ambientais que a sociedade constrói contra si mesma. Como ele próprio diz, as agressões ao meio ambiente geralmente são retratada nos meios de comunicação por números — abstrações. Ou seja: a poluição, a voracidade, a devastação são quantificadas em valores que dificilmente estabelecem uma reação emocional de conscientização.

Afinal de contas, o que representa para o ambiente a venda anual de 3,6 milhões de utilitários esportivos nos EUA? Números desse tipo podem ser muito mais impactantes se convertidos em imagem. É isso o que Jordan faz em sua exposição mais recente, Running the Numbers: milhares de fotos de produtos descartáveis ou dejetos, digitalmente alinhadas, formam mosaicos gigantes que comunicam a vastidão do desperdício e simbolizam o consumo avassalador de recursos naturais. A capacidade intrínseca à fotografia de estabelecer uma reação emocional, somada à escala de elementos compostos nas fotos, dá um recado imediato aos leitores. O subtexto confesso do fotógrafo é o de “enfatizar o papel do indivíduo numa sociedade progressivamente mais vasta, incompreensível e sufocante”.

Cada mosaico representa uma certa quantidade de itens consumidos ou descartados num determinado período de tempo. São expostos na forma de enormes painéis em galerias de arte, o que simultaneamente oferece ao leitor tanto a composição artística como a revelação dos elementos constituintes (bastaria dar alguns passos na direção de cada painel).

Para tentar simular o efeito de mosaico no site, Jordan apela para o zoom progressivo de cada trabalho, até chegar ao ponto de mostrar os itens individuais utilizados como “pinceladas”. Perceber a quantidade insana de “pedrinhas” do mosaico é ainda mais estarrecedor que a obra final. Por exemplo: Skull with Cigarette, painel criado em 2007 com quase dois metros e meio de altura, é composto por 200.000 imagens de maço de cigarro. Esse número não é escolhido a esmo. Duzentos mil é o número de norte-americanos que morrem a cada 6 meses de doenças ligadas ao tabaco.

O trabalho de Chris Jordan também pode ser vislumbrado nas páginas da “edição verde” da revista Superinteressante (n° 247), recém-chegada às bancas. Oxalá alguma entidade brasileira com metas de conscientização ecológica venha a expor suas obras no Brasil. Seria uma aula de ecologia eficiente como poucas.

…E porque hoje é sexta-feira, e sexta é dia de boas notícias, a Secretaria da Fazenda de SP divulgou a tabela para cálculo do IPVA 2008.

Direto ao que interessa: descubra no Excel zipado o valor venal do seu veículo, de acordo com o ano-modelo (colunas rotuladas “m200…”). O IPVA do seu carro será equivalente a 4% disso (ou 3%, se for movido a gás ou a álcool, somente). Motocicletas, ônibus, microônibus e tratores pagam 2%.

Bom início de fim de semana a todos!

No mundo globalizado, até Papai Noel precisa otimizar seus processos. Para auxiliar o bom velhinho, uma empresa sueca de consultoria analisou a logística da entrega de presentes na noite de Natal. Em busca do melhor trajeto possível, foram computados fatores como a rotação da Terra e as áreas do globo com maior densidade de crianças.

O diagnóstico: para garantir o menor esforço, Papai Noel precisará mover sua base de operações para um lugar bem mais árido que o Pólo Norte: as montanhas do Quirguistão, na fronteira com o Cazaquistão. Usuários curiosos de GPS podem até pegar as coordenadas na notícia publicada pela BBC.

Fica a dúvida: será que as renas se adaptarão à altitude, ou terão de ser substituídas por cabritos monteses?

Não sou de ficar transportando vídeos inteiros para dentro do blog, mas este comercial de TV da Guinness merece um link. Chamado de “NoitulovE”, o filme do diretor Danny Kleinman faturou o Grand Prix no festival publicitário de Cannes, no ano passado. Idéias boas são relativamente fáceis de aparecer, mas executá-las com tamanho brilho merece aplausos.

Para quem tiver conexão de sobra e Flash em dia, vale conferir o trabalhão que deu fazer o comercial.

Vejo o outrora solidarizante “espírito de Natal” com maior distanciamento a cada ano. Tenho a sensação que, num país esgarçado como o Brasil, o espírito natalino propriamente dito já fez as malas e se mandou para outras partes — talvez para o reino encantado dos sonhos infantis, onde não precisa se encolher diante da torrente consumista que substitui símbolos edificantes por itens na fatura do cartão de crédito.

O Natal do modo que se espalha pelas lojas parece que só existe nesse contexto: consumo sem dó. É o Natal que invade nossas casas não pelo exercício de aproximação familiar, pela reflexão condizente com um final de ano, mas sim pelos comerciais de TV dispostos a tudo para limpar estoques de bens de consumo. É um fato: Papai Noel foi criado para prometer presentes às crianças e onerar os pais com visitas ao quiosque central do shopping center, aonde um paciente velhinho de roupas vermelhas rala seus joelhos com a agitação dos petizes. É o epicentro de uma trama feita para canalizar a renda de fim de ano das pessoas, outrora azeitada pelo 13º salário (que hoje é majoritariamente voltado a quitar dívidas pregressas das famílias).

É como se houvesse dois Natais: um observado pelos cristãos, que celebram o aniversário de seu líder máximo, e outro que, espertamente, pega carona no primeiro para unificar todo o mundo ocidental (e parte do oriental) num rito de inflação varejista. É o ancoramento anual da hiperbólica produção industrial do século 21.

Felizmente, resta ao Natal um terceiro viés, desvinculado de religião ou grau de poder aquisitivo. Um papel advindo do costume de várias gerações sucessivas: o encontro de família. O Natal de consenso é um feriado mundial vinculado ao desejo de estar com pais, mães, filhos, tios, primos, netos. Que bom que isso existe. Se quisermos um mundo melhor, é preciso que uma boa dose de amor incondicional seja partilhada por todas as pessoas, ao menos uma vez por ano. Se esse amor não existir dentro de cada família, não sei onde existirá.

Ah, os tempos modernos.

Cueca com enchimento