Quem gosta de música popular brasileira, particularmente de MPB “de raiz” (choro, samba, etc.) precisa ser avisado: uma das gravadoras mais ecléticas do país, a Deckdisc, pôs no mercado o melhor disco de música brasileira de 2007, na minha opinião.

Chama-se Contínua Amizade, e registra o encontro de dois jovens de sensibilidade extraordinária e total domínio de seus instrumentos: André Mehmari, pianista nascido em Niterói mas criado em Ribeirão Preto, e Hamilton de Holanda, bandolinista nascido no Rio mas criado em Brasília.

Eles se conheceram nos bastidores do primeiro Prêmio Visa dedicado à música instrumental brasileira, em que André se sagrou vencedor (empatado com o contrabaixista Célio Barros) e Hamilton foi terceiro colocado. Coincidentemente, participaram da mesma eliminatória e se reencontraram na final, sempre no Teatro Cultura Artística. Pude acompanhar as duas apresentações, o que me tornou um ser abençoado.

André Mehmari e Hamilton de Holanda Conheci o André pessoalmente, tempos antes do Prêmio Visa. Estudamos na ECA/USP na mesma época, e cantei ao seu lado entre os barítonos do Coral do CMU. Aproximamo-nos através de um amigo em comum, Estevão Laurito, que anos depois viajaria para a França e se tornaria tenor da Ópera Nacional de Montpellier… mas isso é outra história.

Ver pela primeira vez o André tocar nos seus 20 e poucos anos foi um choque. Sentou-se ao piano depois de um ensaio de coro, e improvisou. Meus poucos e irregulares anos como aprendiz de pianista foram suficientes para perceber que ali estava um instrumentista diferenciado, um desses meninos-gênios com voz própria mesmo com pouca idade.

Anos se passaram e toda a imprensa musical coroou André de louros merecidos. Ninguém que eu tenha ouvido é capaz de tocar com a mesma segurança, facilidade, improviso e brilho. Seu mote é a música popular brasileira, mas em qualquer coloratura — tão mais ou menos erudita quanto se precise para a frase mais adequada ao momento. André já trabalhou com tudo, de jingles de publicidade a peças para orquestra. E segue compondo, arranjando, gravando e planejando parcerias de alto nível, como as feitas com Monica Salmaso e Ná Ozetti.

Hamilton de Holanda é outro fera incontestável. Lembro-me que o anúncio de seu 3º lugar no mesmo Prêmio Visa rendeu uma vaia geral da platéia. O bandolinista tocava como um demônio e enfileirava choros e sambas conhecidos, o que causou uma empatia com público que outros finalistas, mais cerebrais talvez, não chegaram a exibir. De lá para cá, gravou uma dúzia de discos e ganhou o Prêmio Icatu Hartford que o propiciou um ano na França para aperfeiçoamento e carreira internacional. Pertencente ao grupo de seus admiradores confessos (que inclui gente como Ivan Lins, Djavan e João Bosco), Hermeto Paschoal foi taxativo numa entrevista ao Correio Braziliense: “Hamilton é o melhor bandolinista do mundo”.

Eclético ao extremo, Hamilton já tocou como solista, em dueto, trio, quinteto e acompanhando orquestra. Já dividiu palcos com gente tão variada quanto John Paul Jones (do Led Zeppelin) e os músicos do Buena Vista Social Club. Como bom bandolinista, filho espiritual de Jacob do Bandolim, sua formação passa intrinsecamente pelo choro, mas abarca muito mais.

As praias musicais desse dois artistas são diferentes, mas convergem em harmonia na direção de um trabalho raro. Como escreve o próprio André no encarte que acompanha o CD:

Hamilton freqüenta ‘músicas’ que eu não freqüento tanto e vice-versa, até pelas diferentes origens dos nossos instrumentos. Nos encontramos como bons amigos no bar imaginário da música para uma boa conversa, ambos muito interessados, atenciosos e atentos ao assunto que o outro traz à mesa. E nunca falta assunto! Este fator, para mim, torna este duo especialmente estimulante.

Juntos, interpretam Cartola, Paulinho da Viola, Egberto Gismonti e outros, além de composições próprias arranjadas para o duo. É bom que se diga: a sonoridade deles não encontra eco em outras gravações feitas para as mesas músicas. Há muita inteligência e novidade nos arranjos, improvisão e pulso de jazz adicionado ao repertório. O disco foi gravado na própria casa do André, na Serra da Cantareira, em duas tardes de março, sem ajuda de engenheiro ou de técnico de som. Uma brecha nas agendas concorridas permitiu-os brincar sem serem incomodados. A faixa que abre o disco (uma reverente interpretação da “Rosa” de Pixinguinha) foi finalizada na primeira tomada, enquanto os músicos ainda testavam a sonoridade dos microfones.

Pequenos trechos podem ser ouvidos na página da gravadora. Abaixo, uma palhinha do show de lançamento do CD, ocorrido no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. Música de gente grande, que chega a causar estranhamento em quem está acostumado com a mesmice reinante. Espero sinceramente que apreciem.

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