Banner da campanha on-line de apoio à greve de roteiristasÉ possível que você, um seguidor de séries televisivas interessantes, tenha ouvido falar na “greve de roteiristas” que se estende há quase dois meses nos EUA. Os profissionais envolvidos estão vinculados à Writers’ Guild Association. Os escritórios dessa entidade, em Los Angeles e Nova York, circunscrevem praticamente todos os autores de roteiro para TV e cinema dos Estados Unidos.

Em termos simples, os filiados à WGA criam a maior parte do entretenimento audiovisual no mundo ocidental. Canais brasileiros por assinatura do tipo Sony Entertainment Television só têm o que mostrar graças ao registro audiovisual das idéias desses escritores.

Portanto, todo consumidor de TV por cabo no Brasil, na América Latina, na Europa e em outras partes do mundo tem motivos para acompanhar o desenrolar da disputa entre os roteiristas e os conglomerados produtores de audiovisual. “Desenrolar”, contudo, é um termo inadequado ao presente. Há um impasse — causado pelos representantes da Association of Motion Picture and Television Professionals (AMPTP), o “adversário” da WGA. Há 14 dias, retiraram-se da mesa de negociações e não dão mostras de que irão voltar.

O resumo da briga é o seguinte: os autores querem uma participação na renda advinda de transmissão de filmes e seriados pela Internet. Estima-se que esse negócio gere 4,6 bilhões de dólares somente nos próximos três anos. O ponto de vista dos autores está claramente explicado aqui (desde que você entenda o inglês falado nos Estados Unidos).

Os estúdios, com notável cara-de-pau, alegam que não faz sentido dar dinheiro aos roteiristas porque a exibição de filmes e séries pela Internet é “meramente promocional”. Noutros momentos, dizem que “não é possível” estimar o quanto as exibições via Internet irão render. É no mínimo curioso, portanto, que um desses gigantes, a Viacom, não tenha titubeado em requisitar 1 bilhão de dólares e mais um pouco ao YouTube, como reparação num processo judicial em defesa de suas “propriedades ilegalmente transmitidas” pelo site mais festejado dos nossos dias.

Vinte anos atrás, no início do mercado de filmes em VHS, os roteiristas aceitaram receber meros centavos por cada fita comercializada, para “ajudar a fomentar a nova mídia”. Esperavam que, num futuro onde o mercado já estivesse consolidado, fossem recompensados pela indústria. Isso nunca aconteceu. O mesmo parco comissionamento foi legado aos DVDs sem nenhum tipo de correção. Cabe aos roteiristas 4 centavos de dólar por disquinho contendo filme derivado de suas histórias — o consumidor final paga 10 dólares por DVD comprado, em média, nos EUA.

Escaldados pela injustiça financeira, enxergando a Internet como sala de exibição e prevendo um futuro onde TV e protocolo IP sejam o mesmo canal, os escritores não querem repetir a história e lutam por uma remuneração que consideram mais justa. Com seu grande entendimento dos meios audiovisuais e seu poder de sedução, apóiam-se na própria Internet para executar uma estratégia de conscientização do público. Há uma enxurrada de vídeos on-line tratando de todos os ângulos da greve. Um dos roteiristas do Daily Show with Jon Stewart, por exemplo, é o apresentador desta pérola (em inglês).

Nessa briga, é difícil encontrar quem esteja do lado dos estúdios (o que não chega a surpreender, nestes tempos de ódio às corporações multinacionais). Como se sentirão os demais trabalhadores desse ramo, que somam 400 mil na região de Los Angeles? Eletricistas, cenógrafos e microfonistas devem estar temerosos, mas os que realmente contam para a mídia, ou seja, os atores, demonstram apoio sindical e presencial. Recentemente, membros do elenco de séries policiais, tais como CSI, Lost, Num3ers, The Unit, Dexter, The Shield e Law & Order juntaram-se a um protesto organizado pelos roteiristas policiais, que chegaram a visitar estúdios e demarcá-los com a fita amarela típica de “cena do crime” (de apropriação, imagina-se). Por sua vez, a prefeitura de Los Angeles já exortou a AMPTP a retornar às negociações, ciente de que a greve causa prejuízos à economia da região na ordem de 20 milhões de dólares por dia.

Considerando que os roteiristas da WGA também cuidam do script de eventos da indústria, como o já iminente Golden Globe Awards e o centro nervoso dos grandes orçamentos do ano, o Oscar, o caldo só tende a engrossar em Hollywood.

Os espectadores que se preparem: 2008 poderá se tornar um ano inesquecível… para reprises.

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