Pertenço a uma geração de brasileiros criada por pais batalhadores; gente que construiu bases de vida nos últimos anos do “Milagre Econômico” e viu tudo erodir com a explosão da inflação e inépcia dos economistas da “Redemocratização”. Nós, nascidos na classe média dos anos 70, desfrutamos de uma infância com boas condições de vida e sentimos perdas a partir da adolescência. Nossos pais desfizeram-se de posses para cobrir os buracos dos “planos econômicos” deflagrados a partir de Sarney que culminaram, claro, num aventureiro como nunca antes houve tomando a Presidência da República.

Ajudei a expulsá-lo do Planalto caminhando aos brados pela Paulista, mas o dano já tinha sido feito — para minha família e para outras milhares compostas por empresários e empregadores, comerciantes, pagadores de impostos. Gente que lutava para que os filhos tivessem boas escolas, encarecidas devido à degringolação do ensino público. Tudo ficava cada vez mais difícil. O “buraco Brasil” parecia só crescer.

Cheguei à faculdade ouvindo planos de colegas para sair do país e tentar “a vida lá fora”. Achavam impossível ser feliz entre o Oiapoque e o Chuí. Pesava na consciência deles viver sem conseguir refazer os passos dos pais, o que era escancarado pelo fato de morarem com eles até depois dos trinta anos. Era menos uma reclamação sobre a falta de oportunidades do que uma vergonha silenciosa por não conseguir prover para si mesmos (e seus futuros filhos) aquilo que os pais tinham oferecido. Parecia ser uma solução rápida levar a vontade de trabalhar a um país — qualquer país — que pagasse melhor que o Brasil e tivesse menos complicações para quem desejasse viver honestamente.

Nesse caldo, não foram poucos os que vi irem embora. Até agora estão indo. De bate-pronto, lembro da minha prima: se mandou para a Inglaterra, casou-se e foi morar em Amsterdã. Meu melhor amigo de colégio formou-se engenheiro eletrônico e foi morar em Atlanta. Um casal de amigos cansou-se e foi criar dois filhos pequenos em Canberra. Outra amiga casou-se e está em Barcelona. Outro amigo, empregado numa multinacional, aproveitou uma transferência para Colônia (Alemanha) — depois recebeu uma oferta do escritório regional de Xangai, e para a China se foi. Um de meus melhores amigos casou-se com uma cidadã americana e foi viver perto da Filadélfia. Largou uma carreira de programador que o deprimia e arrumou trabalho em contato com a natureza. Só consigo vê-lo a cada dois ou três anos.

Muitos amigos de amigos tomaram o portão de embarque. Dez anos atrás a piada era comum: “o último a sair, apague as luzes do aeroporto”.

Por alguma razão, a maioria das pessoas queria ir para os Estados Unidos. Talvez tenha a ver com a hiperinflação dos anos 80, quando o dólar virou ao mesmo tempo referência comercial e objeto de desejo dos brasileiros. As pessoas vendiam imóveis, carros e outros bens cotando-os em moeda americana. Pensar em notas verdes (hoje seriam pretas) era uma garantia de satisfação, mesmo que na concretização da transação as cédulas fossem nacionais e caíssem de valor já no dia seguinte — a não ser que fossem aplicadas no overnight.

Era uma época estranha, em que carros usados custavam mais que novos, e funcionários de supermercados eram designados como remarcadores de preços. Não havia código de barras nas embalagens de produto; etiquetas individuais eram sobrepostas várias vezes por semana.

Mas veio o Real e, com ele, uma certa calmaria. Verão das férias internacionais fartas, com dólar adquirido a 1 real. Sensação, inicialmente superficial, de estabilidade. Novas práticas de economia multinacional, reforçadas pela Internet. Terceirização global de empregos.

Depois de anos de evasão, parece que o Brasil começa a se tornar atraente de novo. Não sei se para o pessoal capacitado, com vários anos de escola de alto nível nas costas e interesse em carreira de ponta em empresas pelo mundo. Mas certamente para o pessoal não tão escolarizado que saiu daqui com a cara e a coragem. E que, munido de visto de turista, foi lavar pratos ou pintar paredes em lugares como Boston, Newark e Miami. O mais surpreendente: estão voltando não por grandes melhorias no Brasil, mas por piora nos países que adotaram. Na balança, o Brasil se tornou mais interessante.

Há um milhão e cem mil brasileiros nos EUA segundo o Palácio do Itamaraty. Isso dá quatro a cinco vezes mais brasileiros no país do que contabiliza o governo Bush, o que ajuda a estabelecer a dimensão da ilegalidade. Sabe-se que centenas de milhares de brasileiros de classe média residem ilegalmente nos Estados Unidos, alguns há mais de uma década. No entanto, recessão econômica, queda no valor do dólar e principalmente as leis anti-imigração mais severas da história estão fazendo muitos deles empacotar as coisas e voltar. Segundo uma reportagem publicada no New York Times, líderes comunitários, consulados e agências de viagem são unânimes em afirmar: o embarque só de ida para o Brasil está cada vez mais comum.

Para esses ilegais fugidios, a saída dos EUA sela uma proibição legal de dez anos sem possibilidade de reentrada no país. Não é pouco, se considerarmos que alguns casais brasileiros que tentaram fazer a vida lá fora estão até deixando para trás filhos crescidos em solo americano.

Entre várias razões apontadas pelos egressantes, uma se destaca: a impossibilidade de renovar a carteira de motorista. Até aproximadamente o ano 2000, o governo da Flórida podia emitir carteiras de motorista, válidas por oito anos, a estrangeiros com visto de turista. De lá para cá, a legislação endureceu. As carteiras não podem mais ser renovadas sem que os papéis de imigração do portador estejam em ordem. E as carteiras estão expirando.

Diante da falta de transporte público na Flórida, um lugar onde automóvel particular é praticamente sinônimo de cidadania, isso significa que os ilegais estão dirigindo até o trabalho com medo. Com a expiração das carteiras, distrair-se e atravessar um semáforo vermelho pode desagüar em meses de detenção no Departamento de Imigração. Para muitos dos brasileiros, essa é a gota d’água. O pavor de viver com medo da Imigração não compensa mais.

Em lugares como Massachussetts, onde existe transporte público, os problemas são outros: operações cada vez mais intensas para localizar e deportar ilegais, e venda de imóveis outrora alugados por eles, na enorme confusão que se tornou o mercado imobiliário americano (uma explicação clara sobre essa história de “subprime” foi dada pela jornalista Patrícia Campos Melo em seu blog).

Seja como for, o país de Bush não está dando trégua. A família de J. O. B., curitibano de 42 anos que deixou para trás a carreira de professor para trabalhar na construção civil nos EUA, sabe disso. Entrevistado pelo NYT, contou que, na chegada aos EUA, em 1996, dormia com a mulher e o filho no porão da casa de um amigo. No auge da “carreira” de emigrado, já possuía seu próprio negócio de obras hidráulicas, que empregava sete conterrâneos e faturava 6 mil dólares por semana. Mas a partir de 2005, veio a queda. Os sindicatos passaram a exigir das construtoras que contratassem apenas firmas com empregados legalmente aptos a trabalhar no país, situação que lhe prensou contra a parede.

Sem perspectiva real de obter o green card (confessa que gastou 26 mil dólares em chances duvidosas de obtenção), e com a carteira de motorista vencida, J. e sua esposa B. jogaram a toalha. Trazem ao Brasil a filha M., 10 anos, para viver nas terras que compraram no Brasil com o dinheiro guardado; tentarão produzir cana para etanol. O filho T., 21 anos, fica para trás temporariamente. Reluta em deixar a terra a que chama “lar”. Os pais esperam que ele decida se juntar à família no Brasil dentro de um ou dois anos. Certamente não poderão reentrar nos EUA para vê-lo antes de uma década.

Muitos brasileiros estão surfando a mesma onda rumo ao Atlântico Sul: 150 reservas de bilhete só de ida para o Brasil são feitas a cada dia no aeroporto John F. Kennedy. Os vôos estão lotados até fevereiro.

Ainda é cedo para dizer se Governador Valadares vai festejar a volta de seus cidadãos ou chorar a perda da renda extra, mas a tendência parece uma só: os brasileiros estão voltando.

Talvez estejamos, aqui, menos mal do que pensamos.

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