Tomei hoje a Linha Celeste — o trem movido a eletricidade que acompanha o Rio Pinheiros.

Em 2000, na mesma semana em que fui contratado para trabalhar na Berrini, o trem nascia. Fui um dos primeiros usuários. Certamente, um dos primeiros a usar o trem todo dia, de casa para o trabalho e de volta para casa. As estações eram um deserto. Os trens, trazidos da Espanha, tinham ar-condicionado e eram melhores que o metrô. Só incomodava o cheiro do rio, em dias quentes. E a aridez da terra seca em redor. Mas tudo aquilo era melhor que o asfalto pisoteado por tantos carros voando em disparada pela Marginal — ou amontoando-se num rastejar coletivo, esperando alguma coisa que ninguém vê abrir caminho lá na frente.

Pelo rio corriam meus pensamentos naqueles curtos passeios. Com o tempo, o rio ganhou mais vida. O governador lançou um projeto com nome de pomar e plantou mudas pelas encostas. Árvores nascentes passaram a marcar as distâncias entre uma estação e outra. Eu torcia para que vingassem — para que jogassem sombra na terra árida — para que pintassem de verde aquele cinza barroso.

Sete anos depois, cresceram as árvores. Fui lá hoje e vi. Há um caminho inteiro delas, rio afora. Acho que nenhum carro passante enxerga. Mas quem entra no trem, vê. Se parar de falar de trabalho com o colega embarcante e olhar pela janela, vê.

Sete anos tornaram o trem uma passagem para muita gente. Hoje, estava cheio. Seguranças ajudavam as pessoas a se acomodar, para que as portas pudessem ser fechadas. Uma linha de metrô lilás que quase ninguém conhece leva o povo desse trem para um capão. O povo que mora lá, decerto. O trem continua com ar-condicionado, mas cheira a azedo, suor de tanta gente amontoada sendo reprocessado pelas máquinas. Tiraram Raul Seixas e sanfoneiros sem nome dos alto-falantes; agora tocam música clássica, mas quase ninguém escuta. É um metrô de fim de dia sob o sol, cheio de gente que não liga para as árvores. Elas também não ligam, continuam firmes e fortes lá fora. Felizmente.

Desembarquei e vi uma placa amarela fincada perto do rio, ao lado de uma via asfáltica para caminhões de manutenção (do trem, do rio — quem sabe?). A placa mostrava, e falo sério, um desenho de capivara. Dizia “Cuidado! Animais silvestres!” Tinha outra igual a uns cem metros.

A Berrini dos prédios de aço, onde tanta gente se esfalfa mas não fica para dormir, debruça-se sobre capivaras. Quem diria.

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