Uma preocupação pouco discutida publicamente está na pauta de alguns ecologistas europeus: como dispor de cadáveres humanos com mínimo impacto ambiental?

Uma questão como essa sempre expõe um certo pudor nas pessoas. Dependendo da religiosidade condicionada em cada um, ela pode parecer “desrespeitosa” ou até “macabra”. Na verdade, é simples: o espaço para humanos mortos está escasseando no mundo urbanizado.

Adensamentos urbanos há séculos se apóiam no conceito de “cemitério” para desfazer-se dos mortos: uma faixa de terreno, em geral pertencente ao poder público, onde se possa enterrar as pessoas e posteriormente honrar sua memória, visitando os jazigos. Em face dos tabus que naturalmente se afixam à perda de entes queridos, variações que privilegiem o uso racional desses espaços, tais como covas de vários andares e enterro vertical de caixões, dificilmente são bem aceitas. Se o ente querido não estiver “deitado” em seu espaço inviolável, numa representação de inatacável sono eterno, os vivos não se sentirão aliviados.

A cremação é a única alternativa bem aceita e já corriqueira. Os ecologistas, porém, torcem o nariz para a fumaça gerada pela queima e apontam outro problema intrínseco: expostos ao calor intenso, metais fracionalmente depositados no corpo humano (como o tóxico mercúrio, encontrado em amálgamas dentárias) são liberados para o ambiente.

A solução talvez esteja no elemento taoísta que se opõe ao fogo: a água. Mais precisamente, o estado sólido da água.

Uma nova técnica, em pauta na Inglaterra e já praticada na Suécia, recebeu o nome de “promessão”, derivado da empresa sueca que a desenvolveu (Promessa). Envolve o resfriamento do cadáver, em duas etapas. Primeiro é feito o congelamento do morto, a 18 graus centígrados negativos. Depois, vem um brevíssimo mergulho em nitrogênio líqüido, a -196 ºC. Essa exposição ao frio extremo fragiliza enormemente os tecidos.

No passo seguinte do processo, ondas sonoras em determinada freqüência são direcionadas ao corpo. A vibração transforma tudo em farelo. Dois terços desse farelo é água, elemento majoritário no corpo humano, e é facilmente evaporada. As partes metálicas são separadas por eletromagnetismo.

Sobra apenas um pó orgânico que pode ser armazenado numa pequena caixa biodegradável (feita de amido de milho). Enterrada, torna-se húmus em poucos meses.

Susanne Wiigh-Mäsak, uma ex-bióloga marinha que fundou a Promessa, orienta os clientes do sistema a semear ou transferir mudas de plantas para a terra assim adubada, eternizando a lembrança dos entes queridos e, ao mesmo tempo, reforçando a idéia de que a morte recicla a vida. Segundo Susanne, “as tradições funerais de hoje em dia encobrem a realidade” e a promessão oferece “uma forma digna e ética de ser lembrado pelos que ficam”. As autoridades federais suecas apóiam-na. Na Inglaterra, onde conselhos municipais estão sendo pressionados a reduzir emissões de mercúrio, a idéia está ganhando força desde seu surgimento, há cerca de dois anos — especialmente porque se calcula que os cemitérios esgotarão seu espaço em dez anos.

Fatores como o gasto de energia causado pelo novo método (na manutenção de quantidades suficientes de nitrogênio em estado líqüido, por exemplo) não parecem ter sido computados ainda. Mas toda essa discussão amplia uma percepção: para minimizar os efeitos da ação do homem sobre o meio ambiente, até os gestos mais padronizados e enraizados na sociedade precisarão ser revistos.

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