Vejo o outrora solidarizante “espírito de Natal” com maior distanciamento a cada ano. Tenho a sensação que, num país esgarçado como o Brasil, o espírito natalino propriamente dito já fez as malas e se mandou para outras partes — talvez para o reino encantado dos sonhos infantis, onde não precisa se encolher diante da torrente consumista que substitui símbolos edificantes por itens na fatura do cartão de crédito.

O Natal do modo que se espalha pelas lojas parece que só existe nesse contexto: consumo sem dó. É o Natal que invade nossas casas não pelo exercício de aproximação familiar, pela reflexão condizente com um final de ano, mas sim pelos comerciais de TV dispostos a tudo para limpar estoques de bens de consumo. É um fato: Papai Noel foi criado para prometer presentes às crianças e onerar os pais com visitas ao quiosque central do shopping center, aonde um paciente velhinho de roupas vermelhas rala seus joelhos com a agitação dos petizes. É o epicentro de uma trama feita para canalizar a renda de fim de ano das pessoas, outrora azeitada pelo 13º salário (que hoje é majoritariamente voltado a quitar dívidas pregressas das famílias).

É como se houvesse dois Natais: um observado pelos cristãos, que celebram o aniversário de seu líder máximo, e outro que, espertamente, pega carona no primeiro para unificar todo o mundo ocidental (e parte do oriental) num rito de inflação varejista. É o ancoramento anual da hiperbólica produção industrial do século 21.

Felizmente, resta ao Natal um terceiro viés, desvinculado de religião ou grau de poder aquisitivo. Um papel advindo do costume de várias gerações sucessivas: o encontro de família. O Natal de consenso é um feriado mundial vinculado ao desejo de estar com pais, mães, filhos, tios, primos, netos. Que bom que isso existe. Se quisermos um mundo melhor, é preciso que uma boa dose de amor incondicional seja partilhada por todas as pessoas, ao menos uma vez por ano. Se esse amor não existir dentro de cada família, não sei onde existirá.

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