DexterA decisão estapafúrdia do canal pago FOX de dublar toda sua programação, sem deixar sequer um SAP aos pagantes interessados em ouvir o som original das produções, já foi alvo de intenso achincalhe – até mesmo no fórum oficial brasileiro do canal.

Minha história pessoal de decepção veio ao pôr-me diante do sofá para a estréia da série Dexter no Brasil. Depois de semanas ouvindo comerciais anunciarem a série exibindo trechos legendados, tive de constatar que a voz bem modulada de Michael C. Hall fora achatada por um dublador de terceira categoria. Nesse instante, desisti de assistir ao canal FOX e só não desisti do seriado graças a fontes alternativas.

Dexter não é somente a melhor série de TV não comentada no Brasil; é um triunfo de roteiro, diálogos inteligentes e produção de alta qualidade. Sua apresentação sumária – a vida de um serial killer que mata apenas serial killers – permite imaginar o tipo de sangüeira e jargão forense que levou CSI e congêneres ao foco de interesse do público atual. Nada poderia ser mais ilusório.

Não que Dexter Morgan, afável analista de manchas de sangue da Polícia Metropolitana de Miami, se furte a demonstrar seu cotidiano de trabalho. As reconstituições de crimes agressivos com base no sangue deixado para trás prende a atenção de qualquer vampiro nerd.

Porém, o que realmente interessa ao seriado é a segunda jornada de trabalho do rapaz, e as conseqüências dela. Aproveitando-se da ocupação profissional, Dexter informa-se sobre outros indivíduos que, como ele, têm satisfação em matar. O que o diferencia de suas vítimas é um rígido código de conduta, pelo qual o especialista forense remove do mundo apenas os assassinos seriais, sem jamais ameaçar inocentes.

Toda a primeira temporada é construída sobre essa premissa intrigante. Mas o que realmente faz o espectador se deleitar não é o sangue eventualmente derramado (as cenas de assassinato são geralmente abreviadas), e sim a sagacidade e o afiado comentário social que Dexter desfia em seus pensamentos, enquanto executa passos planejados para manter-se inocente aos olhos de todos à volta – os bons seres humanos, cujas emoções ele imita mas não consegue partilhar.

Na segunda temporada, atualmente em cartaz nos EUA, a trama se adensa e o trabalho dos atores (particularmente do protagonista Hall, extraordinário) salta da tela. Findo o primeiro arco de 12 episódios, o “trabalho pregresso” de Dexter é descoberto, gerando uma corrida para pôr um nome no perpetrador. A polícia de Miami e o FBI ganham um novo rumo: identificá-lo. Enquanto dança na luz tentando fazer com que ninguém perceba suas sombras, Dexter começa a duvidar de todas as suas crenças e lança-se numa busca que, afinal de contas, é de todos nós: quem sou eu? Quais os gatilhos, as pressões e direcionamentos externos que o levam a fazer o que faz? Que tipo de pessoa ele acredita ser, e que tipo de pessoa ele realmente é?

Os instrumentos cortantes que manipula com maestria perdem o foco. Em seu lugar surgem, como uma novidade estranha e incômoda, o tipo de ferimento a que todos nos expomos: os erros e acertos de relacionamentos pessoais que determinam nossos caminhos no mundo. O serial killer que a todos encanta pondera se sua máscara será descartada – não apenas no plano criminal.

Dexter é, sobretudo, uma produção magistral da Showtime que merece ser conferida por mais gente. Nenhuma outra série lançada no biênio 2006/2007 me cativou tanto.

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