Caros parcos leitores que ainda registram este endereço, apesar da minha ausência:

Venho libertá-los. Minha situação de vida e trabalho me impedem de dar atenção a este blog, uma vez que não encontro tempo para textos longos. Decidi inverter totalmente minha expressão, limitando meus caracteres ao acompanhamento de fotos, neste espaço…

http://cidadelouca.wordpress.com

…e ao número de 140, neste outro espaço — onde pratico e me acostumo com o chamado microblogging. Parece divertido.

http://twitter.com/ricardochriste

Portanto, despeço-me deste espaço, esperando continuar a desfrutar da sua companhia nos dois endereços acima. Até breve, e muito obrigado pela visita!

Derren Brown O ilusionista britânico Derren Brown está começando a ficar conhecido no Brasil, ainda que por meios subterrâneos. Quem já ouviu o nome se enquadra em uma de duas categorias: ou gosta de truques de mágica, ou gosta de procurar vídeos interessantes no YouTube. Pessoas que gostam das duas coisas freqüentemente encontram Derren Brown. Surpreende que nenhum canal a cabo brasileiro tenha trazido seus programas de TV (genericamente intitulados Mind Control) para cá.

Derren Brown se autodenomina um “ilusionista psicológico”, utilizando uma mistura de técnicas que vão de prestidigitação a hipnose para realizar truques que parecem impossíveis, ou mesmo sobrenaturais. Mas não o são — e ele faz questão de deixar isso claro, como o racionalista convicto que é. Abandonou o fundamentalismo cristão herdado de seus pais por volta dos 20 anos, e hoje inicia seus shows passando um recado: não sou um feiticeiro, sou apenas um observador agudo.

Começou como mágico fazendo truques de cartas, até perceber que o que o atraía não era a execução dos truques, e sim a relação psicológica entre o mágico e seu público. A partir desse momento, começou a traçar um caminho próprio de performance, misturando “truques de mãos” a  “truques da mente”. Achou seu nicho no mercado e ganhou notoriedade na primeira metade dos anos 2000, tornando-se uma estrela da mídia britânica. Apresentações abarrotadas de gente nos teatros e programas de TV similares a um “reality show” de mágica de rua resultam em estatísticas comprobatórias da sua crescente popularidade.

Tudo o que Derren Brown faz, segundo ele próprio insiste, pode ser decupado pela lógica… mas não é fácil entender esses mecanismos, ou simplesmente evitar que o queixo caia, ao vê-lo em ação. Na TV, ele já entrevistou um grupo de vendedores de carros usados e determinou sem erro quais deles mentiam e quais diziam a verdade ao falar do passado. Já recebeu uma resma de retratos de gente viva e gente morta das mãos de um agente funerário; sem saber quem era quem; dividiu as fotos corretamente em duas pilhas, “vivos” e “mortos”. Noutra ocasião, deu a três homens a tarefa de mover um conjunto aleatório de móveis de um cômodo a outro — adivinhando com perfeição em que lugares e de que modo seriam postos os móveis.

Como qualquer profissional do encantamento, ele mantém em segredo algumas de suas ferramentas, mas realmente não se considera mais “mediúnico” do que qualquer pessoa na rua. “Reconheço que sou um pouco ambígüo”, já disse numa entrevista, “mas no momento em que eu explicar completamente um truque, seu encanto se perderá”. Apesar do sucesso como mágico, ele não se alimenta do brilho midiático em escala hollywoodiana que alegra David Copperfield, nem se comporta como um maluco disposto a arriscar a vida publicamente, como David Blaine. Derren Brown é simplesmente muito, muito bom no que faz. E, enquanto nenhuma editora de DVDs brasileira faz uma aposta nesse sucesso internacional, o jeito é apelar. Vários de seus vídeos estão disponíveis na Internet; basta procurar com o mesmo zelo e dedicação que Brown aplica no seu aperfeiçoamento profissional. Para constante deleite de todos nós.

Faz sentido que a mídia mundial acompanhe de perto as eleições americanas. Afinal, o nome que aflorar do processo bizantino de eleições indiretas que parecem diretas, literalmente comandará o mundo sem restrições. Continuará uma tradição de 60 anos de ingerência (por meios claros ou escusos) em nações soberanas. Manterá a roda-viva do consumismo, amparado em crédito destemperado, às custas do desenvolvimento econômico exterior. Poderá jogar bombas em quaisquer países julgar interessante, sem impedimentos.

O processo eleitoral americano deve ser acompanhado por todos os seres humanos, sem exceção. Em jogo podem estar suas vidas.

Aos nomes, pois: John Edwards e Rudolph Giuliani acabaram de pular fora. O tosco Mitt Romney, felizmente, não tem chances reais. John McCain pode parecer um velhinho simpático, mas é um republicano. Barack Obama fala bem, mas só superficialmente. Ninguém sabe como fará o que afirma ser necessário fazer. E Hillary, nenhum brasileiro deve esquecer, foi ao menos parcialmente responsável pela evasão escoltada dos pilotos do jato Legacy que colidiu com o vôo 1907 da Gol. Sejam culpados ou não, jamais serão julgados agora.

Uma coisa, porém, dá certo alento. Nenhum deles é o atual presidente. Sempre que um genocida deixa o poder, renova-se minha esperança na humanidade. Não dura muito a sensação, mas comemoro mesmo assim.

As criações publicitárias destinadas ao McDonald’s brasileiro se condensam magistralmente na folha que recobre a bandeja de seus “restaurantes” (como a rede os chama). Refiro-me ao papel onde o atendente de balcão apóia o hambúrguer, refrigerante e batata frita do seu pedido. No jargão publicitário, tem o nome de lâmina.

Recentemente, passei por um “Mac” e fiquei impressionado com uma belíssima criação impressa na lâmina. Peguei um exemplar descartado e limpo para estudar em casa. O tema daquela tiragem era uma sátira aos catálogos de venda pela Internet (no meu tempo de criança, catálogos de venda por “reembolso postal”), temperada por futurismo dedicado ao conforto da humanidade. Uma galeria de utilidades domésticas imaginárias me saudava, como se aquilo fosse um folheto explicando recursos técnicos daquela aparelhagem toda. Adoraria ter na vida real, por exemplo, um Casacold 1000 tal como apresentado. Garantiria ausência de suor nas minhas caminhadas pela cidade no verão. Moldado, ainda por cima, na última tendência da moda (verde), pois seria refrigerado à custa do “novíssimo gás coruscante nitroso, que não agride o meio-ambiente”.

Pena que tudo isso tenha o efeito de tirar a atenção da informação nutricional da comida servida no McDonald’s, grafada em letras miúdas no verso da lâmina ilustrada. Quem quer leitura chata quando se pode aproveitar brincadeiras coloridas?

Pôster de campanha da prefeitura de Nova York contra a gordura transQualquer pessoa que se dê ao trabalho de virar a folha e fizer poucas operações matemáticas terá sérias dúvidas quanto ao papel que o McDonald’s tem na alimentação infantil. Calorias demais, sódio demais, gordura demais. Ainda mais levando-se em conta que os percentuais exibidos são calculados com base na dieta de 2.000 Kcal de um adulto.

Pode-se ter uma alimentação saudável no McDonald’s? Certamente; há maçãs à venda. Água de coco. Cenouras.

Agora me diga, você já foi ao McDonald’s e pediu qualquer um desses itens? Seus filhos já pediram para você levá-los ao McDonald’s para comer maçã? Já pediram para você comprar as cenouras?

Todos os sanduíches do McDonald’s contêm dosagens de gordura trans. Está escrito no verso da lâmina. As sobremesas também têm doses de gordura trans; só as maçãs (não a torta de maçã, notem bem) e a salada de frutas escapam. Até o iogurte com frutas vermelhas e cereais, coisa que a maioria de nós consideraria “saudável”, tem gordura trans.

Por que se insiste tanto em falar de “gordura trans”, hoje em dia? Porque se trata de algo que não contribui de nenhuma forma positiva para a nutrição humana, e aumenta o risco de doenças do coração. Simples assim.

Segundo informa a Wikipédia, a vasta maioria das gorduras trans consumida atualmente é criada pela indústria de processamento de alimentos. Pode-se dizer que a gordura trans é um “efeito colateral” do processo de hidrogenação de gorduras de origem vegetal — ou seja, da produção de gordura vegetal hidrogenada, item corriqueiro nos alimentos industrializados.

A Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos já concluiu que não existe nível seguro ou adequado de consumo de gordura trans. Não há “ingestão diária recomendada”, nem mesmo um limite tolerável. Qualquer consumo de gordura trans aumenta o risco de doenças coronarianas (cardíacas).

Mais e mais países estudam restrições sérias ou proibição do uso de gordura trans no hemisfério norte. O pôster que ilustra este texto, uma campanha da municipalidade de Nova York, reflete a preocupação presente até em governos locais.

A mensagem, caros leitores, é clara: muito cuidado com o que comem e o que dão de comer a seus filhos.

Capa da edição 2006O Atlas de bolso da Dorling Kindersley, provavelmente a editora mais caprichosa do mundo, é um deleite. Mapas políticos e físicos de todas as regiões do planeta, além de fichas factuais de todas as nações, cabem num livrinho pouco maior que minha mão (embora com uns dois dedos de espessura). Tudo colorido, com sofisticação editorial e gráfica que não se encontra em muito livro maior e mais caro por aí.

Um ótimo diferencial são os inúmeros comentários distribuídos pelos mapas, trazendo informações vinculadas de geografia, história e outras ciências. Ofereço aos leitores um pouco de deliciosa cultura de almanaque:

  • O lugar do mundo onde mais venta é… a Antártida. Em Commonwealth Bay, junto à Terra de George V, foram registrados ventos com velocidade superior a 320 quilômetros por hora. Para se ter uma idéia, qualquer coisa acima de 118 Km/h é considerada furacão.
  • Em 14 de abril de 1986, uma chuva de granizo matou 92 pessoas na região de Gopalganj, em Bangladesh. As pedras de gelo que caíram do céu foram as mais pesadas que se tem notícia: um quilograma cada, em média.
  • No espaço aéreo da Costa do Marfim foi anotado o vôo mais alto de um pássaro: um abutre de Ruppell, avistado a impressionantes 37 mil pés, o que dá pouco mais de 11.200 metros de altitude. A rigor, seu vôo só ficou conhecido porque a ave foi atropelada por um jato comercial. Ganhou notoriedade póstuma.
  • A sauna é um hábito tão comum entre os finlandeses que existem cerca de 2 milhões de saunas comerciais e residenciais instaladas no país — para atender a uma população de 5 milhões de pessoas (em 2004).
  • No século 10, o Grande Vizir da Pérsia tinha o hábito de transportar sua biblioteca consigo toda vez que viajava. Os 117 mil volumes eram transportados por camelos — treinados para andar em fila que respeitava a ordem alfabética dos títulos.

The Perry Bible Fellowship é uma tirinha on-line, escrita em língua inglesa, que anda fazendo sucesso na Internet. Seu título não tem nada a ver com o conteúdo, da mesma forma que, segundo o autor Nicholas Gurewitch, a Madonna se chama Madonna apesar de obviamente ela não ser uma madonna no sentido religioso.

No estilo artístico e no imaginário retratado, a tira apropria-se de lembranças de infância e subverte-as em situações surreais, pinceladas de eventual erotismo e freqüentemente recobertas de crueldade. Tudo é pintado em cores delicadas e o início é sempre idílico. Tanto melhor para terminar em tragédia… como nesta história de macaquinhos.

Veja esta e outras tirinhas no site de Nicholas Gurewitch

Não há cronologia e quase não há repetição de temas; dessa forma, as tirinhas podem ser lidas em qualquer ordem. Como sou metódico, sugiro começar pela número 1, justamente uma das menos recomendadas para menores. O site contém cerca de 200 tiras já no estoque digital… divirta-se.

Quem gosta de música popular brasileira, particularmente de MPB “de raiz” (choro, samba, etc.) precisa ser avisado: uma das gravadoras mais ecléticas do país, a Deckdisc, pôs no mercado o melhor disco de música brasileira de 2007, na minha opinião.

Chama-se Contínua Amizade, e registra o encontro de dois jovens de sensibilidade extraordinária e total domínio de seus instrumentos: André Mehmari, pianista nascido em Niterói mas criado em Ribeirão Preto, e Hamilton de Holanda, bandolinista nascido no Rio mas criado em Brasília.

Eles se conheceram nos bastidores do primeiro Prêmio Visa dedicado à música instrumental brasileira, em que André se sagrou vencedor (empatado com o contrabaixista Célio Barros) e Hamilton foi terceiro colocado. Coincidentemente, participaram da mesma eliminatória e se reencontraram na final, sempre no Teatro Cultura Artística. Pude acompanhar as duas apresentações, o que me tornou um ser abençoado.

André Mehmari e Hamilton de Holanda Conheci o André pessoalmente, tempos antes do Prêmio Visa. Estudamos na ECA/USP na mesma época, e cantei ao seu lado entre os barítonos do Coral do CMU. Aproximamo-nos através de um amigo em comum, Estevão Laurito, que anos depois viajaria para a França e se tornaria tenor da Ópera Nacional de Montpellier… mas isso é outra história.

Ver pela primeira vez o André tocar nos seus 20 e poucos anos foi um choque. Sentou-se ao piano depois de um ensaio de coro, e improvisou. Meus poucos e irregulares anos como aprendiz de pianista foram suficientes para perceber que ali estava um instrumentista diferenciado, um desses meninos-gênios com voz própria mesmo com pouca idade.

Anos se passaram e toda a imprensa musical coroou André de louros merecidos. Ninguém que eu tenha ouvido é capaz de tocar com a mesma segurança, facilidade, improviso e brilho. Seu mote é a música popular brasileira, mas em qualquer coloratura — tão mais ou menos erudita quanto se precise para a frase mais adequada ao momento. André já trabalhou com tudo, de jingles de publicidade a peças para orquestra. E segue compondo, arranjando, gravando e planejando parcerias de alto nível, como as feitas com Monica Salmaso e Ná Ozetti.

Hamilton de Holanda é outro fera incontestável. Lembro-me que o anúncio de seu 3º lugar no mesmo Prêmio Visa rendeu uma vaia geral da platéia. O bandolinista tocava como um demônio e enfileirava choros e sambas conhecidos, o que causou uma empatia com público que outros finalistas, mais cerebrais talvez, não chegaram a exibir. De lá para cá, gravou uma dúzia de discos e ganhou o Prêmio Icatu Hartford que o propiciou um ano na França para aperfeiçoamento e carreira internacional. Pertencente ao grupo de seus admiradores confessos (que inclui gente como Ivan Lins, Djavan e João Bosco), Hermeto Paschoal foi taxativo numa entrevista ao Correio Braziliense: “Hamilton é o melhor bandolinista do mundo”.

Eclético ao extremo, Hamilton já tocou como solista, em dueto, trio, quinteto e acompanhando orquestra. Já dividiu palcos com gente tão variada quanto John Paul Jones (do Led Zeppelin) e os músicos do Buena Vista Social Club. Como bom bandolinista, filho espiritual de Jacob do Bandolim, sua formação passa intrinsecamente pelo choro, mas abarca muito mais.

As praias musicais desse dois artistas são diferentes, mas convergem em harmonia na direção de um trabalho raro. Como escreve o próprio André no encarte que acompanha o CD:

Hamilton freqüenta ‘músicas’ que eu não freqüento tanto e vice-versa, até pelas diferentes origens dos nossos instrumentos. Nos encontramos como bons amigos no bar imaginário da música para uma boa conversa, ambos muito interessados, atenciosos e atentos ao assunto que o outro traz à mesa. E nunca falta assunto! Este fator, para mim, torna este duo especialmente estimulante.

Juntos, interpretam Cartola, Paulinho da Viola, Egberto Gismonti e outros, além de composições próprias arranjadas para o duo. É bom que se diga: a sonoridade deles não encontra eco em outras gravações feitas para as mesas músicas. Há muita inteligência e novidade nos arranjos, improvisão e pulso de jazz adicionado ao repertório. O disco foi gravado na própria casa do André, na Serra da Cantareira, em duas tardes de março, sem ajuda de engenheiro ou de técnico de som. Uma brecha nas agendas concorridas permitiu-os brincar sem serem incomodados. A faixa que abre o disco (uma reverente interpretação da “Rosa” de Pixinguinha) foi finalizada na primeira tomada, enquanto os músicos ainda testavam a sonoridade dos microfones.

Pequenos trechos podem ser ouvidos na página da gravadora. Abaixo, uma palhinha do show de lançamento do CD, ocorrido no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. Música de gente grande, que chega a causar estranhamento em quem está acostumado com a mesmice reinante. Espero sinceramente que apreciem.

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