Com vocês, o trailer do próximo longa da Pixar. Eu queria descobrir se seria possível embutir um player de vídeos neste blog — e dificilmente haveria maneira mais legal de fazer isso.

Conheço muitos brasileiros que tiram sarro do Engrish nipônico, mas “livre redação” é o que não falta neste país. A singela espécie de maçã retratada abaixo atende pelo nome de Granny Smith. Mas nem todo mundo tem respeito pela vovó…

Maçã Grasmiti

Eu sei, é muito pouco para quem espera novos posts neste blog. Culpem minha gripe, que sufoca meu cérebro em muco e impede que meu raciocínio funcione. Peço aos meus cinco leitores um pouco de paciência. Volto em uns dois dias.

Chris Jordan é um artista norte-americano que instiga observadores a pensar nas armadilhas ambientais que a sociedade constrói contra si mesma. Como ele próprio diz, as agressões ao meio ambiente geralmente são retratada nos meios de comunicação por números — abstrações. Ou seja: a poluição, a voracidade, a devastação são quantificadas em valores que dificilmente estabelecem uma reação emocional de conscientização.

Afinal de contas, o que representa para o ambiente a venda anual de 3,6 milhões de utilitários esportivos nos EUA? Números desse tipo podem ser muito mais impactantes se convertidos em imagem. É isso o que Jordan faz em sua exposição mais recente, Running the Numbers: milhares de fotos de produtos descartáveis ou dejetos, digitalmente alinhadas, formam mosaicos gigantes que comunicam a vastidão do desperdício e simbolizam o consumo avassalador de recursos naturais. A capacidade intrínseca à fotografia de estabelecer uma reação emocional, somada à escala de elementos compostos nas fotos, dá um recado imediato aos leitores. O subtexto confesso do fotógrafo é o de “enfatizar o papel do indivíduo numa sociedade progressivamente mais vasta, incompreensível e sufocante”.

Cada mosaico representa uma certa quantidade de itens consumidos ou descartados num determinado período de tempo. São expostos na forma de enormes painéis em galerias de arte, o que simultaneamente oferece ao leitor tanto a composição artística como a revelação dos elementos constituintes (bastaria dar alguns passos na direção de cada painel).

Para tentar simular o efeito de mosaico no site, Jordan apela para o zoom progressivo de cada trabalho, até chegar ao ponto de mostrar os itens individuais utilizados como “pinceladas”. Perceber a quantidade insana de “pedrinhas” do mosaico é ainda mais estarrecedor que a obra final. Por exemplo: Skull with Cigarette, painel criado em 2007 com quase dois metros e meio de altura, é composto por 200.000 imagens de maço de cigarro. Esse número não é escolhido a esmo. Duzentos mil é o número de norte-americanos que morrem a cada 6 meses de doenças ligadas ao tabaco.

O trabalho de Chris Jordan também pode ser vislumbrado nas páginas da “edição verde” da revista Superinteressante (n° 247), recém-chegada às bancas. Oxalá alguma entidade brasileira com metas de conscientização ecológica venha a expor suas obras no Brasil. Seria uma aula de ecologia eficiente como poucas.

…E porque hoje é sexta-feira, e sexta é dia de boas notícias, a Secretaria da Fazenda de SP divulgou a tabela para cálculo do IPVA 2008.

Direto ao que interessa: descubra no Excel zipado o valor venal do seu veículo, de acordo com o ano-modelo (colunas rotuladas “m200…”). O IPVA do seu carro será equivalente a 4% disso (ou 3%, se for movido a gás ou a álcool, somente). Motocicletas, ônibus, microônibus e tratores pagam 2%.

Bom início de fim de semana a todos!

Pertenço a uma geração de brasileiros criada por pais batalhadores; gente que construiu bases de vida nos últimos anos do “Milagre Econômico” e viu tudo erodir com a explosão da inflação e inépcia dos economistas da “Redemocratização”. Nós, nascidos na classe média dos anos 70, desfrutamos de uma infância com boas condições de vida e sentimos perdas a partir da adolescência. Nossos pais desfizeram-se de posses para cobrir os buracos dos “planos econômicos” deflagrados a partir de Sarney que culminaram, claro, num aventureiro como nunca antes houve tomando a Presidência da República.

Ajudei a expulsá-lo do Planalto caminhando aos brados pela Paulista, mas o dano já tinha sido feito — para minha família e para outras milhares compostas por empresários e empregadores, comerciantes, pagadores de impostos. Gente que lutava para que os filhos tivessem boas escolas, encarecidas devido à degringolação do ensino público. Tudo ficava cada vez mais difícil. O “buraco Brasil” parecia só crescer.

Cheguei à faculdade ouvindo planos de colegas para sair do país e tentar “a vida lá fora”. Achavam impossível ser feliz entre o Oiapoque e o Chuí. Pesava na consciência deles viver sem conseguir refazer os passos dos pais, o que era escancarado pelo fato de morarem com eles até depois dos trinta anos. Era menos uma reclamação sobre a falta de oportunidades do que uma vergonha silenciosa por não conseguir prover para si mesmos (e seus futuros filhos) aquilo que os pais tinham oferecido. Parecia ser uma solução rápida levar a vontade de trabalhar a um país — qualquer país — que pagasse melhor que o Brasil e tivesse menos complicações para quem desejasse viver honestamente.

Nesse caldo, não foram poucos os que vi irem embora. Até agora estão indo. De bate-pronto, lembro da minha prima: se mandou para a Inglaterra, casou-se e foi morar em Amsterdã. Meu melhor amigo de colégio formou-se engenheiro eletrônico e foi morar em Atlanta. Um casal de amigos cansou-se e foi criar dois filhos pequenos em Canberra. Outra amiga casou-se e está em Barcelona. Outro amigo, empregado numa multinacional, aproveitou uma transferência para Colônia (Alemanha) — depois recebeu uma oferta do escritório regional de Xangai, e para a China se foi. Um de meus melhores amigos casou-se com uma cidadã americana e foi viver perto da Filadélfia. Largou uma carreira de programador que o deprimia e arrumou trabalho em contato com a natureza. Só consigo vê-lo a cada dois ou três anos.

Muitos amigos de amigos tomaram o portão de embarque. Dez anos atrás a piada era comum: “o último a sair, apague as luzes do aeroporto”.

Por alguma razão, a maioria das pessoas queria ir para os Estados Unidos. Talvez tenha a ver com a hiperinflação dos anos 80, quando o dólar virou ao mesmo tempo referência comercial e objeto de desejo dos brasileiros. As pessoas vendiam imóveis, carros e outros bens cotando-os em moeda americana. Pensar em notas verdes (hoje seriam pretas) era uma garantia de satisfação, mesmo que na concretização da transação as cédulas fossem nacionais e caíssem de valor já no dia seguinte — a não ser que fossem aplicadas no overnight.

Era uma época estranha, em que carros usados custavam mais que novos, e funcionários de supermercados eram designados como remarcadores de preços. Não havia código de barras nas embalagens de produto; etiquetas individuais eram sobrepostas várias vezes por semana.

Mas veio o Real e, com ele, uma certa calmaria. Verão das férias internacionais fartas, com dólar adquirido a 1 real. Sensação, inicialmente superficial, de estabilidade. Novas práticas de economia multinacional, reforçadas pela Internet. Terceirização global de empregos.

Depois de anos de evasão, parece que o Brasil começa a se tornar atraente de novo. Não sei se para o pessoal capacitado, com vários anos de escola de alto nível nas costas e interesse em carreira de ponta em empresas pelo mundo. Mas certamente para o pessoal não tão escolarizado que saiu daqui com a cara e a coragem. E que, munido de visto de turista, foi lavar pratos ou pintar paredes em lugares como Boston, Newark e Miami. O mais surpreendente: estão voltando não por grandes melhorias no Brasil, mas por piora nos países que adotaram. Na balança, o Brasil se tornou mais interessante.

Há um milhão e cem mil brasileiros nos EUA segundo o Palácio do Itamaraty. Isso dá quatro a cinco vezes mais brasileiros no país do que contabiliza o governo Bush, o que ajuda a estabelecer a dimensão da ilegalidade. Sabe-se que centenas de milhares de brasileiros de classe média residem ilegalmente nos Estados Unidos, alguns há mais de uma década. No entanto, recessão econômica, queda no valor do dólar e principalmente as leis anti-imigração mais severas da história estão fazendo muitos deles empacotar as coisas e voltar. Segundo uma reportagem publicada no New York Times, líderes comunitários, consulados e agências de viagem são unânimes em afirmar: o embarque só de ida para o Brasil está cada vez mais comum.

Para esses ilegais fugidios, a saída dos EUA sela uma proibição legal de dez anos sem possibilidade de reentrada no país. Não é pouco, se considerarmos que alguns casais brasileiros que tentaram fazer a vida lá fora estão até deixando para trás filhos crescidos em solo americano.

Entre várias razões apontadas pelos egressantes, uma se destaca: a impossibilidade de renovar a carteira de motorista. Até aproximadamente o ano 2000, o governo da Flórida podia emitir carteiras de motorista, válidas por oito anos, a estrangeiros com visto de turista. De lá para cá, a legislação endureceu. As carteiras não podem mais ser renovadas sem que os papéis de imigração do portador estejam em ordem. E as carteiras estão expirando.

Diante da falta de transporte público na Flórida, um lugar onde automóvel particular é praticamente sinônimo de cidadania, isso significa que os ilegais estão dirigindo até o trabalho com medo. Com a expiração das carteiras, distrair-se e atravessar um semáforo vermelho pode desagüar em meses de detenção no Departamento de Imigração. Para muitos dos brasileiros, essa é a gota d’água. O pavor de viver com medo da Imigração não compensa mais.

Em lugares como Massachussetts, onde existe transporte público, os problemas são outros: operações cada vez mais intensas para localizar e deportar ilegais, e venda de imóveis outrora alugados por eles, na enorme confusão que se tornou o mercado imobiliário americano (uma explicação clara sobre essa história de “subprime” foi dada pela jornalista Patrícia Campos Melo em seu blog).

Seja como for, o país de Bush não está dando trégua. A família de J. O. B., curitibano de 42 anos que deixou para trás a carreira de professor para trabalhar na construção civil nos EUA, sabe disso. Entrevistado pelo NYT, contou que, na chegada aos EUA, em 1996, dormia com a mulher e o filho no porão da casa de um amigo. No auge da “carreira” de emigrado, já possuía seu próprio negócio de obras hidráulicas, que empregava sete conterrâneos e faturava 6 mil dólares por semana. Mas a partir de 2005, veio a queda. Os sindicatos passaram a exigir das construtoras que contratassem apenas firmas com empregados legalmente aptos a trabalhar no país, situação que lhe prensou contra a parede.

Sem perspectiva real de obter o green card (confessa que gastou 26 mil dólares em chances duvidosas de obtenção), e com a carteira de motorista vencida, J. e sua esposa B. jogaram a toalha. Trazem ao Brasil a filha M., 10 anos, para viver nas terras que compraram no Brasil com o dinheiro guardado; tentarão produzir cana para etanol. O filho T., 21 anos, fica para trás temporariamente. Reluta em deixar a terra a que chama “lar”. Os pais esperam que ele decida se juntar à família no Brasil dentro de um ou dois anos. Certamente não poderão reentrar nos EUA para vê-lo antes de uma década.

Muitos brasileiros estão surfando a mesma onda rumo ao Atlântico Sul: 150 reservas de bilhete só de ida para o Brasil são feitas a cada dia no aeroporto John F. Kennedy. Os vôos estão lotados até fevereiro.

Ainda é cedo para dizer se Governador Valadares vai festejar a volta de seus cidadãos ou chorar a perda da renda extra, mas a tendência parece uma só: os brasileiros estão voltando.

Talvez estejamos, aqui, menos mal do que pensamos.

O Museu Nacional da Coréia do Sul inaugurou recentemente um tributo à arte e engenhosidade humanas: a recriação de um relógio movido a água originalmente projetado em 1434. “Jagyeckru do pavilhão Borugak, nome da peça original, é uma delicada monstruosidade: mede 6 metros de comprimento, 2 metros de largura e 6 metros de altura. Foi concebido por um cientista chamado Jang Young-sil, durante o reinado de Sejong (1418-1450).

O magn�fico Jagyeckru

O projeto foi tão bem sucedido que permaneceu ativo e copiado em outros pontos da Ásia pelo menos até o século 16.

O relógio funciona graças a um fluxo controlado de água, que é distribuída em três potes de tamanhos diferentes (à esquerda na foto). Bastões flutuam na água e sobem verticalmente quando ela se acumula. A certa altura, os bastões empurram alavancas que, por sua vez, liberam bolas metálicas.

As bolas correm por canaletas (centro da foto) e atuam como contrapesos para um mecanismo que faz soar um gongo a cada 20 minutos, um tambor a cada 100 minutos, e um sino a cada duas horas. Ao toque desse sino, o relógio movimenta um dentre vários bonecos (à direita na foto). Cada boneco carrega uma plaqueta com uma indicação de hora cheia.

Pesquisadores gastaram 20 anos e cerca de um milhão de dólares para fazer a reconstrução a partir dos resquícios de uma versão fabricada em 1536, chamada “Jagyeongnu”. O líder do grupo, prof. Nam Moon-hyon, ressalta a importância da peça para a história da tecnologia, uma vez que foi originalmente projetada com base em conceitos de engenharia de várias partes da Ásia.

Todo mundo tem um palpite sobre como será campeonato mundial de futebol de 2014. Eis o meu: será mais ou menos o que foi o Pan 2007, ou seja, dará tudo certo no final das contas. Alguns erros serão anotados, mas se até no Mundial da Alemanha o teto do estádio vazou um agüaceiro, não haverá quem se lembre muito deles. Afinal, o destino sinalizou a necessidade de um mínimo esforço de arrumação: o incidente na Fonte Nova ocorreu poucas semanas após ouvirmos a confirmação da sede do Mundial 2014. No Brasil, sempre morrem alguns para que o poder público se mexa com celeridade.

O problema relacionado ao Mundial 2014 certamente não será ligado ao futebol em si, mas à perpetuação do modelo de “cartolagem” que já cansou de encher páginas policiais e desesperançou todos os brasileiros fãs de esporte com três ou quatro neurônios funcionando. O presidente da confederação brasileira é um excelente assunto para reflexão: a história de um advogado comum que se casou com a filha do rei e virou príncipe, para nunca mais sair do trono. Monarquia é a única forma de governo que explica a perpetuação de um sujeito conivente com tamanho atraso e descarada demonstração contínua de conveniências a cada novo campeonato regional, nacional ou internacional. Um povo cordeiro e desenergizado pela faina diária não deve ter forças para ir à rua e exigir sua renúncia — se nem os impostos extorsivos nós combatemos, porque o faríamos com mero lazer televisivo?

A Seleção Brasileira é a guarda real. O entronado escuda-se nas idolatradas armaduras canárias para manter o povo feliz consigo. O que se estranha é que nem mesmo a fragorosa derrota de 2006 — a segunda nos pés do desafiador Zidane, diga-se — foi capaz de lançar adagas contra o rei.

Fossem estes tempos renascentistas, a elite despregada do poder atiçaria as massas contra o rei e seus lordes espalhados nas confederações estaduais, e concomitantemente contrataria um exército mercenário para fazer o trabalho de força. Mas aqui, agora, nem Ministérios Públicos estaduais e federal foram capazes de se organizar a contento. Os cartolas se provaram mais espertos.

Que tão baixas formas de vida se apoderem do futebol brasileiro e extraiam a vitalidade do hospedeiro até que se torne pústula é uma reflexão que fiz hoje, pasmem, por influência de um norte-americano.

Franklin Foer nasceu nos EUA num tempo em que futebol só era transmitido pela tevê de seu país em Copa do Mundo. Eventualmente, umas reprises de partidas dos campeonatos alemão e italiano aos Domingos pela manhã, e só. Descobriu que não se dava com a bola nos pés bem cedo, freqüentando uma das escolinhas fundadas num modismo que encantava pais americanos da geração baby boomer, a partir do final dos anos 60. Mas a paixão pelo esporte cresceu com ele. Já adulto e formado jornalista, com currículo de contribuições ao Wall Street Journal, New York Times, Slate e Spin, decidiu fazer algo que deixaria muito brasileiro morrendo de inveja. Passou oito meses visitando vários estádios emblemáticos mundo afora e compilando informações com jornalistas e cronistas de cada país. Assistiu a jogos clássicos e entrevistou figuras visceralmente ligadas à bola. Convenceu seu agente (e depois uma editora) que seria uma boa idéia tecer comentários sobre a espiritualidade transnacional do esporte mais popular de todos, e sua relação direta com a globalização da economia. O resultado é um livro fascinante do começo ao fim: How Soccer Explains the World (editora HarperCollins).

Cada capítulo trata de um canto de mundo onde o futebol tem um papel além do puro exercício atlético — e por acaso haverá lugar aonde o futebol se restrinja a isso? A paixão de Foer pelo esporte é evidente no capítulo sobre o Barça (o maior defeito editorial do livro é não imprimir cedilhas), mas as partidas que pincela têm significado mais político do que esportivo, e correm em todos os lugares. Ele está interessado em sentar-se nas arquibancadas e olhar para os torcedores — em como suas práticas na arena refletem suas bases culturais. Também está interessado em visitar os clubes e seu entorno, para entender como a própria fundação e manutenção das agremiações reflete o contexto social e político de sua época.

É nas pessoas, e não no esporte em si, que Foer se concentra; é delas que saem as peças mais instigantes de seu raciocínio. Ao dar voz e analisar figuras tão díspares como um hooligan inglês e um nigeriano contratado pelos Cárpatos para treinar a 25 graus centígrados negativos, ele humaniza seu retrato do esporte que é uma fascinante mescla de dinheiro globalizado e ressentimentos regionais; um canal de vociferação contra regimes políticos; um pivô de resistência (ou de abraço) à transformação; um centro de instilação de domínio em regimes totalitários ou corruptamente democráticos.

O Brasil está lá, bem resumido: do Pelé “calado e poeta” ao Pelé que abraçou Ricardo Teixeira e fez o jornalista José Trajano lamentar a morte da decência no esporte; da exportação de craques para compensar os rombos de parcerias com grupos internacionais, como ISL e Hicks Muse (a patética opereta MSI foi descortinada após a publicação do livro, o que é uma pena); e de muitas outras “particularidades”. Enfim, o retrato da corrupção que todos nós conhecemos muito bem, mas que, lido em inglês, torna-se mais duro, mais incômodo: é um visitante implicitamente cutucando nossa permissividade, e dizendo, afinal de contas, a mais pura verdade.

Mas o Brasil é fichinha perto do que se faz em nome do futebol pelo mundo. Estão no livro agremiações de fãs violentos que se tornaram instrumentos paramilitares nas guerras dos Bálcãs; mulheres loucas por futebol que forçaram mulás iranianos a rever regras teocráticas sobre comportamento; e um novo olhar sobre o conflito católico-protestante, não exatamente na Irlanda, mas na ancestral rivalidade entre os dois maiores times da Escócia. E mais… oligarcas italianos, catalães opositores ao Franquismo, escretes judaicos reais ou imaginários, e conservadorismo norte-americano. Tudo entremeado ao futebol, o esporte mais popular do planeta, e conseqüentemente, o maior veículo de paixões coletivas que existe. Certamente o livro mais interessante que li este ano, por tratar não exatamente de esporte, mas do mundo espelhado pelo esporte. Evidencia que “pátria de chuteiras” é qualquer coisa, menos uma exclusividade brasileira.


Pouco antes de terminar este texto, resolvi checar se o livro foi lançado no Brasil. Sim, foi. A editora Jorge Zahar oferece o prólogo para leitura.

No mundo globalizado, até Papai Noel precisa otimizar seus processos. Para auxiliar o bom velhinho, uma empresa sueca de consultoria analisou a logística da entrega de presentes na noite de Natal. Em busca do melhor trajeto possível, foram computados fatores como a rotação da Terra e as áreas do globo com maior densidade de crianças.

O diagnóstico: para garantir o menor esforço, Papai Noel precisará mover sua base de operações para um lugar bem mais árido que o Pólo Norte: as montanhas do Quirguistão, na fronteira com o Cazaquistão. Usuários curiosos de GPS podem até pegar as coordenadas na notícia publicada pela BBC.

Fica a dúvida: será que as renas se adaptarão à altitude, ou terão de ser substituídas por cabritos monteses?

Tomei hoje a Linha Celeste — o trem movido a eletricidade que acompanha o Rio Pinheiros.

Em 2000, na mesma semana em que fui contratado para trabalhar na Berrini, o trem nascia. Fui um dos primeiros usuários. Certamente, um dos primeiros a usar o trem todo dia, de casa para o trabalho e de volta para casa. As estações eram um deserto. Os trens, trazidos da Espanha, tinham ar-condicionado e eram melhores que o metrô. Só incomodava o cheiro do rio, em dias quentes. E a aridez da terra seca em redor. Mas tudo aquilo era melhor que o asfalto pisoteado por tantos carros voando em disparada pela Marginal — ou amontoando-se num rastejar coletivo, esperando alguma coisa que ninguém vê abrir caminho lá na frente.

Pelo rio corriam meus pensamentos naqueles curtos passeios. Com o tempo, o rio ganhou mais vida. O governador lançou um projeto com nome de pomar e plantou mudas pelas encostas. Árvores nascentes passaram a marcar as distâncias entre uma estação e outra. Eu torcia para que vingassem — para que jogassem sombra na terra árida — para que pintassem de verde aquele cinza barroso.

Sete anos depois, cresceram as árvores. Fui lá hoje e vi. Há um caminho inteiro delas, rio afora. Acho que nenhum carro passante enxerga. Mas quem entra no trem, vê. Se parar de falar de trabalho com o colega embarcante e olhar pela janela, vê.

Sete anos tornaram o trem uma passagem para muita gente. Hoje, estava cheio. Seguranças ajudavam as pessoas a se acomodar, para que as portas pudessem ser fechadas. Uma linha de metrô lilás que quase ninguém conhece leva o povo desse trem para um capão. O povo que mora lá, decerto. O trem continua com ar-condicionado, mas cheira a azedo, suor de tanta gente amontoada sendo reprocessado pelas máquinas. Tiraram Raul Seixas e sanfoneiros sem nome dos alto-falantes; agora tocam música clássica, mas quase ninguém escuta. É um metrô de fim de dia sob o sol, cheio de gente que não liga para as árvores. Elas também não ligam, continuam firmes e fortes lá fora. Felizmente.

Desembarquei e vi uma placa amarela fincada perto do rio, ao lado de uma via asfáltica para caminhões de manutenção (do trem, do rio — quem sabe?). A placa mostrava, e falo sério, um desenho de capivara. Dizia “Cuidado! Animais silvestres!” Tinha outra igual a uns cem metros.

A Berrini dos prédios de aço, onde tanta gente se esfalfa mas não fica para dormir, debruça-se sobre capivaras. Quem diria.

Não sou de ficar transportando vídeos inteiros para dentro do blog, mas este comercial de TV da Guinness merece um link. Chamado de “NoitulovE”, o filme do diretor Danny Kleinman faturou o Grand Prix no festival publicitário de Cannes, no ano passado. Idéias boas são relativamente fáceis de aparecer, mas executá-las com tamanho brilho merece aplausos.

Para quem tiver conexão de sobra e Flash em dia, vale conferir o trabalhão que deu fazer o comercial.

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